Resumo objetivo:
O fundador anuncia o encerramento do Refettorio Gastromotiva após dez anos, destacando que o projeto serviu mais de 3 milhões de refeições, formou centenas de pessoas e evitou o desperdício de 350 toneladas de alimentos. A decisão visa transformar a experiência acumulada em políticas públicas escaláveis, inspirando programas como o Mesa Solidárias, e redirecionar a organização para um foco sistêmico, com atuação em rede e combate às injustiças climáticas.
Principais tópicos abordados:
1. Encerramento e legado do Refettorio Gastromotiva.
2. Impacto social e resultados alcançados na década de operação.
3. Transição do modelo para influenciar políticas públicas e ganhar escala.
4. Novo ciclo da Gastromotiva com foco em articulação, inovação e justiça climática.
Depois de dez anos, tomei uma decisão difÃcil: encerrar o Refettorio Gastromotiva. DifÃcil porque foi um projeto que deu certo. Ao longo da última década, servimos mais de 3 milhões de refeições, formamos centenas de cozinheiros e empreendedores, evitamos o desperdÃcio de 350 toneladas de alimentos e beneficiamos diretamente 169 mil pessoas em situação de rua ou insegurança alimentar.
Essa experiência me fez entender algo importante sobre legado. Ele não é apenas um espaço fÃsico nem uma tecnologia social replicável. Legado é um lugar de despertar que continua existindo dentro de cada pessoa que foi tocada pelo espaço de convivência que o Refettorio criou.
Cada jantar era diferente, cada encontro era único. Voluntários e cozinheiros mudavam, assim como quem sentava à mesa. Beneficiários e clientes se encontravam nos olhares, nos gestos simples, na gentileza compartilhada à mesa.
Modelo criado pelo chef italiano Massimo Bottura, o Refettorio mostrou que é possÃvel promover um espaço acolhedor, bonito e agregador, independentemente da origem de cada um.
Mostrou que a comida pode suspender hierarquias e criar uma realidade paralela, fruto de um poder coletivo. Desde o inÃcio, o Refettorio nunca foi um projeto assistencialista. Foi cultural, educativo e essencialmente humano.
Para mim, foi também uma grande escola. No Refettorio, aprendi a trabalhar em rede, a confiar no voluntariado, a articular formadores de opinião, empresas, organizações sociais, poder público e sociedade civil em torno de um objetivo comum.
Aprendi que impacto social não se sustenta no heroÃsmo individual, mas na construção coletiva. Assim como eu tive um despertar na favela do Jaguaré em 2004 e descobri meu super poder de gerar pontes, testemunhei incontáveis momentos de despertar de poderes pessoais que esse projeto propicia em cada um de nós.
Com o tempo, foi ficando claro para mim que, para enfrentar a fome e a insegurança alimentar de maneira mais ampla, precisamos de um Refettorio (ou uma solução equivalente) em cada bairro. Por isso, saber que o Refettorio serviu de inspiração para polÃticas públicas me dá tanta esperança.
Em Curitiba, o modelo foi incorporado pelo municÃpio e é conhecido como o programa Mesa Solidárias. A gastronomia social é polÃtica pública em cidades como São Paulo e Fortaleza. São experiências concretas que mostram que o modelo funciona âe que o Estado pode aprender com iniciativas da sociedade civil.
Encerrar o Refettorio não significa abandonar esse aprendizado. Pelo contrário: significa assumir que ele precisa ganhar escala, para além das organizações sociais.
Estamos abertos ao diálogo para que isso aconteça também no Rio de Janeiro, transformando experiência acumulada em polÃtica pública estruturante.
Para a Gastromotiva, começa, agora, um novo ciclo, com mais foco em articulação e inovação. Menos operação direta, mais impacto sistêmico.
Serão projetos em que o alimento segue como nosso vetor de inspiração e diálogo, mantendo a metodologia que já nos guia, mas com um ingrediente a mais: mobilizar ações para enfrentar as injustiças climáticas e transformar um sistema alimentar global insustentável.
Nesse novo contexto, vamos nos dedicar a iniciativas em rede na amazônia, onde desenvolvemos projetos que usam a comida como ferramenta de transformação territorial, geração de renda e conservação da natureza.
Vamos também apoiar que as Cozinhas Solidárias Gastromotiva gerem sustentabilidade financeira. O Refettorio nos ensinou que projetos sociais podem gerar renda própria e incorporar um modelo de negócio ao impacto socioambiental.
O programa âque fez o Refettorio Gastromotiva extrapolar seu impacto para além do espaço fÃsico do restaurante-escolaâ oferece formação, insumos e apoio logÃstico para microempreendedores, cozinheiros, coletivos e organizações sociais implementarem cozinhas comunitárias.
A iniciativa já viabilizou mais de 3,5 milhões de refeições distribuÃdas, fortalecendo redes locais e promovendo geração de renda.
Para um empreendedor social, responsabilidade é ter coragem de mudar para ampliar o impacto. O Refettorio cumpriu seu papel. A comida continua sendo o ponto de partida. O horizonte é que ficou maior.