Resumo objetivo:
O artigo narra a trajetória de Vilton Brito, um publicitário de origem humilde que, após construir uma carreira de sucesso, cofundou o aplicativo Bora. A plataforma tem como objetivo gerar renda complementar para as classes C, D e E, recompensando usuários com criptomoedas por seu engajamento digital, que podem ser trocadas por descontos e benefícios. O projeto, que já conta com 1 milhão de usuários e uma parceria com a Caixa Econômica Federal, busca redirecionar o valor da publicidade diretamente para o consumidor final.
Principais tópicos abordados:
1. A trajetória pessoal e profissional de Vilton Brito.
2. O conceito, funcionamento e objetivo social do aplicativo Bora.
3. O impacto e a adoção da plataforma, especialmente em comunidades.
4. O modelo de negócio que descentraliza o marketing de influência e redistribui valor.
Vilton Brito não tinha sobrenome importante em BrasÃlia, como muitos de seus colegas de faculdade. Filho de professora, cria da periferia e bolsista do Prouni (Programa Universidade para Todos), foi fazer seu nome no mercado publicitário de São Paulo.
Tinha 28 anos quando se mudou para a capital paulista para empreender. Cinco anos depois, em 2024, vendeu sua parte em uma agência que tinha R$ 120 milhões em contratos com grandes empresas.
"Olha o que eu fiz com nada", diz Brito, 35, hoje CEO da Core Midia, braço de comunicação da Arka Holding, sediada na av. Faria Lima. "Minha missão é deixar alguma coisa nessa passagem."
Passagem marcada por gente que ficou pelo caminho âamigos do bairro perdidos para tráfico de drogas e o pai, que morreu quando Brito tinha 17 anos. Mas também por um bocado de sorte, como a chance de atender a conta da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, aos 23 anos.
Ãpoca em que o publicitário ajudou a criar um glossário de comunicação cidadã para o governo federal. No lugar de âbusque assistência médicaâ, ele sugeria âprocure seu médicoâ, por exemplo. Logo depois, ele assumiu cargo de liderança no Twitter [hoje chamado X].
O jovem talentoso ainda tinha um atributo como poucos em agências: falava a lÃngua da quebrada e a do asfalto e entendia a dinâmica de uma parcela da sociedade que há bem pouco tempo não era vista como mercado consumidor.
Em 2025, Brito junto esses mundos. Convidou Ricardo Podval, fundador do hub de impacto Civi-co, Pedro Alexandre, criador da moeda digital Wibx, e Raull Santiago, empreendedor social e ativista do Complexo do Alemão (RJ) para serem sócios de um projeto que buscava impacto social.
Era o Bora, aplicativo que recompensa a audiência e o engajamento com marcas. Ao cumprir tarefas como assistir vÃdeos ou compartilhar produtos nas redes sociais, usuários ganham criptomoedas que viram desconto em cursos, restaurantes, transporte, ingressos e até Pix.
"à a descentralização do marketing de influência. Tem muita gente experimentando no morro", diz Santiago, que em novembro do ano passado usou suas redes para mostrar o impacto da ação policial que se tornou a mais letal da história do paÃs, com 121 mortos.
O Complexo do Alemão foi laboratório para o Bora, que mira classes C, D e E para transformar a atenção e o engajamento digital em incremento de renda. A inovação do negócio está na inversão do fluxo de valor: o dinheiro de mÃdia vai para a ponta, em vez de ser capturado por plataformas como a Meta.
"Topei entrar porque é uma ferramenta de distribuição de renda. A juventude que todo dia bate na porta da ONG no Alemão pode usar o Bora para ter vantagens, economizar o que ia gastar em um hambúguer, por exemplo", completa Santiago.
"Já virou um telefone sem fio aqui, todo mundo usa", diz Tiago da Purificação, 37, articulador local. "à uma forma de ganhar dinheiro porque a gente assiste muito vÃdeo no Instagram e não ganha nada com isso."
Tiago conquistou 4.000 moedas WibX no Bora âequivalente a cerca de R$ 30. "Pode trocar por desconto de R$ 20 no Mc Donaldâs, R$ 15 no Uber e até Pix", diz ele, que pretende resgatar seus benefÃcios quando chegar a 8.000 moedas.
A plataforma lançada em 3 de setembro do ano passado conta com 1 milhão de usuários e busca escala em parceria com o programa de pontos e vantagens da Caixa Econômica Federal, o UAU Caixa, da qual Brito também é diretor de marketing. São pelo menos 150 milhões de clientes do banco com acesso à plataforma.
Para Ricardo Podval, o aplicativo aproxima grandes marcas do que ele chama de Brasil real. "O Bora transforma pessoas comuns em microinfluenciadoras, com renda complementar que pode chegar a R$ 300 para quem ganha 1 ou 2 salários-mÃnimos."
Desde novembro, mais de R$ 8 milhões foram distribuÃdos em benefÃcios na plataforma gamificada. No momento em que a reportagem acessou o app, no inÃcio de março, havia poucas ativações disponÃveis. Segundo a empresa, algumas campanhas se encerraram no Carnaval e outras devem iniciar em breve.
A nova operação exigiu a reeestruturação do grupo que reúne empresas como a Minu, lÃder em marketing de recompensas, criada em 2007 para competir com programas de relacionamento baseados em pontos âconsiderados caros e pouco inclusivos à época. Em seu site, a Minu afirma entregar mensalmente R$ 80 milhões em recompensas, o que evidencia o potencial deste mercado.
"O Bora cria uma nova categoria, a da mÃdia recompensada, mistura de fidelidade com mÃdia digital", explica Brito.
O meio-brasiliense-meio-paulistano apresentou o projeto-piloto do Alemão em Davos, na SuÃça, durante o Fórum Econômico Mundial e, em maio, vai a Nova York (EUA). Ele quer tornar sua criação o próximo unicórnio brasileiro [startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão].
"à uma coisa que o Vilton daquele glossário jamais ia entender", diz ele.