Resumo objetivo:
O texto relata um episódio em que o escritor Carlos Heitor Cony, já idoso e com saúde frágil, pregau uma peça ao dizer, de forma dramática, que "não passaria daquela noite", assustando a equipe do evento. Apesar das brincadeiras frequentes com a própria mortalidade, ele participou brilhantemente do debate e permaneceu ativo e produtivo até morrer, quase aos 92 anos.
Principais tópicos abordados:
1. O humor irreverente de Cony diante da doença e da morte.
2. Seu talento e vitalidade intelectual, que permaneciam intactos.
3. A reflexão sobre sua trajetória, marcada por temas como jornalismo e liberdade de expressão.
4. A celebração de seu legado e personalidade única por ocasião do que seria seu centenário.
Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada, surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no Santos-Dumont.
Ao chegar de carro ao prédio da avenida Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da produção. Elas o observaram ser descido a custo do veÃculo e colocado na cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr. Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".
Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião âo que, de certa forma, era a história dele próprio.
Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos anos 90, recém-saÃdo de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele à s vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura e o fez atravessar, vivÃssimo, as muitas noites de que dizia que "não passaria".
Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.