A Casas Bahia projeta um cenário de vendas positivo para 2026, aproveitando eventos como a Copa do Mundo e o ciclo eleitoral, mas adota cautela devido ao aumento dos custos de frete e aos altos índices de inadimplência. A empresa, que recentemente saiu de uma recuperação extrajudicial e reduziu drasticamente sua dívida, reportou um prejuízo líquido de R$ 2,98 bilhões em 2025, impulsionado principalmente por uma baixa não recorrente em ativos fiscais. O CEO Renato Franklin afirma que o pior momento da varejista já passou, destacando que a empresa agora possui uma das mais baixas alavancagens do setor.
Principais tópicos abordados:
1. Perspectivas de vendas para 2026 e fatores de incentivo (Copa do Mundo, eleições).
2. Cenário de cautela e riscos (custos logísticos, inadimplência).
3. Situação financeira e resultados da empresa (recuperação extrajudicial, redução de dívida, prejuízo recorde).
4. Mudança na estratégia comercial (foco em controle de risco de crédito versus crescimento agressivo das vendas).
Ano de Copa do Mundo é o melhor para vender televisores e a Casas Bahia conta com isso para dar um impulso à s vendas, assim como com o maior volume de dinheiro em circulação em ano eleitoral. Por outro lado, o aumento do preço de frete, como consequência da alta do petróleo devido à guerra no Irã, e uma concessão de crédito mais comedida, tendo em vista o avanço dos Ãndices de inadimplência, fazem com que a varejista não encare 2026 com o pé no acelerador, segundo o CEO do grupo, Renato Franklin, 45.
Em meio a novos anúncios de recuperação extrajudicial âdo Grupo Pão de Açúcar e da RaÃzen, esta última a maior da históriaâ, Franklin respira aliviado. A companhia também entrou em recuperação extrajudicial em abril de 2024, com dÃvidas de R$ 4,1 bilhões, e saiu três meses depois. Desde então, converteu dÃvidas em ações, mudou de mãos, e reduziu os débitos para R$ 1,13 bilhão, conforme o balanço de 2025, divulgado nesta quinta-feira (12). Ainda assim, o prejuÃzo quase triplicou em relação a 2024, para R$ 2,98 bilhões, devido a um efeito não recorrente.
"O pior momento da Casas Bahia já passou", afirma à Folha Franklin, administrador mineiro que desde 2023 está à frente da varejista, também dona do Ponto Frio. "Hoje temos uma das mais baixas alavancagens do varejo", diz ele, referindo-se ao indicador que mede o nÃvel de endividamento de uma empresa e o quanto isso pode comprometer sua operação. A alavancagem é calculada pela relação entre dÃvida lÃquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização); a da Casas Bahia está em 0,4 vez. No setor, a taxa tem variado entre 2 e 3,5 vezes nos últimos anos. A do GPA, por exemplo, está em 2,4 vezes.
Apesar disso, o resultado veio ruim, com prejuÃzo de R$ 2,98 bilhões, quase três vezes superior à s perdas de 2024 (R$ 1,04 bilhão). Segundo Franklin, o salto está relacionado a uma "baixa não recorrente de ativos fiscais diferidos" no valor de R$ 1,45 bilhão. Essa baixa significa que a empresa enfrenta risco de perdas em ações judiciais de alto valor, que podem impactar seu resultado no futuro.
Sem esse efeito, o prejuÃzo teria crescido 47%, para R$ 1,5 bilhão. A provisão serviu para proteger a Casas Bahia do não pagamento de uma dÃvida de cerca de R$ 170 milhões por parte do Pão de Açúcar, que perdeu uma disputa arbitral envolvendo débitos da época em que o varejista alimentar era sócio da antiga Globex, hoje Casas Bahia. O GPA arrolou a dÃvida, que seria paga neste mês, na sua recuperação extrajudicial anunciada na última terça (10).
"Fizemos um 'stress testing' [simulação de condições muito desfavoráveis de mercado]. Se os juros não caÃrem, se a guerra impactar a inflação, se a inflação aumentar e o Banco Central não reduzir a taxa de juros, o que acontece com o meu resultado pelos próximos dez10 anos? Neste cenário, preferimos ser conservadores", diz. "Se for para ter surpresas no balanço, que sejam só positivas."
A Casas Bahia encerrou 2025 com faturamento de R$ 34,8 bilhões (alta de 7,4% sobre 2024), receita lÃquida de R$ 29,2 bilhões (+ 7,3%) e Ebitda ajustado de R$ 2,5 bilhões (+ 29,7%). Mas o resultado financeiro ficou negativo em R$ 3,7 bilhões (alta de 68% na comparação anual), puxado pela alta dos juros.
APOSENTADORIA DO 'QUER PAGAR QUANTO?'
Para quem eternizou o bordão "quer pagar quanto?" âem referência aos descontos e condições para ajustar as parcelas ao bolso do consumidor â, a Casas Bahia mudou radicalmente de mote depois de estar prestes a pedir recuperação judicial, em 2024. A palavra de ordem na empresa é vender menos para manter a inadimplência estável, abaixo do patamar de 9%, segundo Franklin.
"à muito fácil você se empolgar com o cenário de desemprego em queda e aumento da renda real, querer acelerar demais e se endividar de novo", diz. "Existe uma demanda por crédito, que nos faria vender mais, mas o consumidor está muito endividado e temos sido conservadores, ninguém sabe o dia de amanhã", diz ele, relatando que o nÃvel de inadimplência no cheque especial saiu de 12% no inÃcio de 2024 para 17% ao final do ano passado.
No grupo, as vendas do crediário somam 17%. A maior fatia vem do cartão de crédito (65%). Mas as compras via Pix, que representam 23%, crescem. "Sempre que pode, o consumidor quer pagar à vista para ter desconto", diz.
A empresa vem aumentando suas vendas no canal on-line depois da parceria com o Mercado Livre, fechada em novembro, e no último trimestre o comércio eletrônico já representou 45,5% do total. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, as vendas digitais tinham respondido por 31%. "Desde novembro, nós crescemos no digital, mesmo considerando só as vendas no marketplace próprio", diz Franklin, que paga uma comissão ao Mercado Livre e continua usando a sua própria logÃstica para entrega ao consumidor.
O grupo, aliás, enfrentou gargalos nos pedidos de fim do ano, com Black Friday e Natal, que geraram reclamações de clientes, além de atrasar pagamentos a alguns vendedores do marketplace. Segundo o executivo, os problemas foram pontuais e resolvidos. Entre 2024 e 2025, no entanto, as queixas contra a Casas Bahia na plataforma Reclame Aqui avançaram 35%, para 117,6 mil.
Franklin afirma que a guerra no Irã, que já está impactando o preço do petróleo, tende a aumentar o valor dos fretes. "Um pouco de aumento [de custo do frete] vai ter. Qualquer aumento será repassado ao consumidor", diz.
No mesmo espÃrito de "contenção", o grupo divulgou na noite desta quarta (11) que vai emitir uma nota comercial de R$ 1,4 bilhão junto ao Bradesco, com prazo de dois anos, para substituir passivos de risco sacado de curto prazo. O objetivo é alongar os vencimentos, sem aumentar o endividamento.
EQUIPE REDUZIU 24% NOS ÃLTIMOS CINCO ANOS
Os novos rumos da companhia vêm sendo ditados pelo Mapa Capital, gestora de participações criada por ex-executivos do Itaú BBA e da Rio Bravo Investimentos. No ano passado, o Mapa comprou debêntures que estavam com Bradesco e Banco do Brasil, os maiores credores da Casas Bahia, e as converteu em ações, a fim de reestruturar o passivo da varejista.
A reestruturação gerou uma economia da ordem de R$ 230 milhões ao ano em despesas financeiras e manteve as linhas de crédito ativas com os bancos, o que foi fundamental para garantir o capital de giro. A operação gerou forte diluição dos acionistas, incluindo a famÃlia Klein, fundadora da Casas Bahia. Meses antes, Michael Klein, que tinha 10% do negócio, havia ensaiado uma volta ao conselho da companhia, mas desistiu. Desde agosto, o Mapa Capital detém 85,5% do grupo. "Isso deu estabilidade para a gestão", diz Franklin.
Com expertise em finanças, o Mapa veio como solução para saÃda dos bancos e eliminou a pressão das dÃvidas de curto prazo, diz Eugênio Foganholo, sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. "Mas a Casas Bahia ainda está muito distante da performance que tinha no passado e precisa provar ser capaz de gerar lucro."
Antigamente, diz, essa missão era conferida ao time de vendas, que tinha "sangue nos olhos" e estava encarregado de cobrir ofertas da concorrência, vendendo mais barato para ganhar em volume. "Mas essa motivação deixou de existir", afirma o consultor. A equipe também foi reduzida sensivelmente nos últimos cinco anos: de 46 mil para os atuais 35 mil funcionários. No perÃodo, o número de lojas ficou praticamente estável, em torno de 1.000.
Ainda assim, o consultor afirma que a Casas Bahia é um competidor relevante, com presença nacional e marca forte.
RAIO-X CASAS BAHIA
- Fundação: 1957
- Sede: São Paulo
- Funcionários: 35 mil
- Lojas e centros de distribuição (CDs): 1.070 lojas e 25 CDs, em 23 estados e no Distrito Federal
- Concorrentes: Magazine Luiza, Mercado Livre, Shopee, Lojas Cem
- Faturamento 2025: R$ 34,8 bilhões