Resumo objetivo:
O artigo relata uma série de feminicídios e agressões violentas contra mulheres ocorridos no Brasil durante o fim de semana do Dia Internacional da Mulher, evidenciando a alarmante escalada da violência de gênero. Paralelamente, destaca a influência de grupos misóginos online (como "Red Pills" e "Incels") que radicalizam homens e adolescentes, propagando ódio e relativizando agressões. Os dados estatísticos apresentados confirmam o crescimento dos feminicídios no país, reforçando a urgência do problema.
Principais tópicos abordados:
1. Onda de feminicídios e violência doméstica no Brasil, com casos específicos e dados estatísticos recentes.
2. Influência de comunidades misóginas online na radicalização de homens e na promoção da violência contra mulheres.
3. Conexão entre discurso de ódio digital, extremismo político e a naturalização da agressão feminina na sociedade.
Nó na garganta. Aperto no peito. Grito sufocado. Choro transbordando. Foi assim que me senti ao acordar na manhã seguinte ao 8 de março e ler as notícias. No domingo, enquanto milhares de mulheres se reuniam na praia de Copacabana para reivindicar o direito de viver, outras companheiras Brasil afora estavam sendo agredidas e assassinadas pelos homens que juraram amá-las.
Em São Gonçalo, Tatiana de Carvalho Paulino foi morta a facadas pelo ex-namorado Alessandro da Silva Carvalho. O motivo? Quase sempre o mesmo: o homem não aceitava o fim do relacionamento. Em Praia Grande, no litoral paulista, Katiana Oliveira foi morta a tiros pelo ex-namorado Eronildo Manoel da Silva. O motivo? O homem também não aceitava o término da relação. Na mesma região, menos de 24 horas depois do assassinato de Katiana, mais um caso chocou os moradores. Thais Rodrigues Rocha de Oliveira foi espancada e asfixiada pelo marido, Pedro Ubiratan, que confessou o crime nas redes sociais. O casal tinha três filhas. No Rio de Janeiro, no bairro do Colégio, um homem agrediu a namorada com chutes na cabeça e a arrastou pelo meio da rua. O motivo? Ingeriu bebida alcóolica e “ficou” violento.
Apesar de todos esses criminosos terem sido presos, o dano é irreparável. A cada dia que passa, dezenas de famílias são destruídas pelo masculinismo. O fato de todos esses crimes terem acontecido no final de semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres chama a atenção e evidencia a escalada alarmante de feminicídios e violência de gênero no Brasil. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a criação da Lei do Feminicídio, em março de 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no país em função do gênero feminino. Somente em janeiro de 2026, o Judiciário brasileiro registrou 947 novos casos de feminicídio. A cada 36 minutos uma mulher foi atendida em uma unidade da rede municipal de saúde do Rio de Janeiro vítima de algum tipo de violência.
Enquanto somos atropeladas por essa realidade brutal e tentamos assimilar tantos novos casos, ainda seguimos desorientadas com o horror dos desdobramentos do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos cometido por cinco agressores, em Copacabana. Alguns desses jovens são integrantes de famílias com alguma influência política, como é o caso de Vitor Hugo Simonin. O filho de José Carlos Costa Simonin, ex-subsecretário estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, se entregou na delegacia de cabeça erguida e olhar altivo, usando uma camisa com a mensagem, em inglês: “não se arrependa de nada”. A frase é utilizada por grupos misóginos que propagam discursos de ódio contra mulheres na internet, os chamados “Red Pills” e “Incells“.
Não é coincidência. Meninos e homens estão sendo incentivados a odiar mulheres em plataformas como Telegram e Discord. A radicalização de adolescentes por esses fóruns e comunidades virtuais disparou no Brasil e as consequências extrapolam as fronteiras da internet e impactam a vida real. Existe um sistema organizado de misoginia, onde as mulheres são tratadas como inimigas e os estupros e as agressões são relativizados. Nesses territórios da web sem lei, eles pregam que mulheres devem ser inferiores e submissas, subjugadas ao controle masculino, e coordenam ataques. Geralmente, esses canais são controlados por homens adultos que aliciam e manipulam menores com discursos que culpabilizam as mulheres pela insegurança e pela frustração dos homens. É importante ressaltar ainda que as comunidades red pill são uma ferramenta tecnológica do capitalismo que vem sendo utilizada pela extrema direita para cooptar meninos e homens para se tornarem polinizadores da ideologia extremista. Por sua vez, os meios de comunicação ajudam na difusão e na dominação ideológica, oprimem as mulheres e hoje estão bastante concentrados nas mãos das poderosas big techs, que adotam posturas publicamente fascistas.
A verdade é que a violência contra a mulher é a faceta mais perversa do patriarcado, este sistema político, econômico e social que assola a vida das mulheres no Brasil e nos países ocidentais, sobretudo os colonizados. Mulheres são assassinadas porque o sistema patriarcal constrói uma supremacia masculina, em que nossas vidas precisam estar subjugadas, sendo, como Simone de Beauvoir aponta, o segundo sexo. A socióloga brasileira Heleieth Saffioti nos lembra que o “nó” que estrutura o Brasil só existe porque racismo, capitalismo e patriarcado se retroalimentam, mantendo a dominação masculina e branca, concentrada na burguesia e nas elites. O funcionamento do capitalismo depende da extração de um grande contingente de trabalho não pago. Uma das formas de alcançar esse objetivo é convencer as mulheres de que a exploração do nosso trabalho, seja reprodutivo, profissional ou doméstico, é normal. A violência é a mão opressora deste conjunto de elementos sociais que, quando nós, mulheres, avançamos, rejeitamos ou questionamos, busca nos redirecionar para o lugar que, para o capital, “sempre foi nosso”: o lugar do “sim, senhor”, da submissão e do silêncio. Desta forma, a violência contra as mulheres não é apenas um problema individual, mas parte da própria organização do Estado.
Toda essa cultura de violência é muito assustadora e necessita de uma resposta firme e articulada com toda a sociedade. Em reação a essa onda criminosa, apresentei na Câmara Municipal do Rio seis projetos de lei para enfrentar a violência de gênero na cidade. O pacote de iniciativas legislativas contempla propostas para fortalecer a rede de proteção, com destinação de imóveis ociosos para acolhimento e atendimento de vítimas de violência; criação de um protocolo de monitoramento para mulheres que estão sob medida protetiva; implementação de programas e campanhas permanentes de conscientização, como “Criança Não é Esposa” e “Cuidar das Adolescências”; ampliação do acesso à informação sobre a Lei Maria da Penha em escolas e bibliotecas públicas e comunitárias; inclusão da disciplina “Educação para o Combate à Misoginia” nos currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio, nas redes pública e privada de ensino; e mobilização ativa de meninos e homens no enfrentamento à violência contra mulheres e meninas.
Além disso, o Brasil tem uma tarefa urgente e inadiável: criminalizar, no âmbito federal, a misoginia e o discurso de ódio contra as mulheres. Já tramitam na Câmara dos Deputados e no Senado diversos projetos de lei para tipificar a incitação misógina organizada e criminalizar os discursos red pill, a exemplo das propostas das companheiras Duda Salabert, Sâmia Bomfim e Ana Paula Lobato.
Mas não basta criar novas leis. Precisamos ter a capacidade e a capilaridade para implementá-las de modo efetivo. Enfrentar um problema estrutural tão grave como este exige que as leis desçam do papel para fazerem a diferença na realidade concreta da vida das mulheres, sob risco de virar letra morta. Cabe a nós, como cidadãs, militantes e parlamentares, pressionar por uma mudança real que garanta o direito à vida das meninas e mulheres das próximas gerações. E cabe aos homens, como os causadores de toda essa violência, serem chamados à responsabilidade e se tornarem vozes aliadas na luta pelas nossas vidas.
*Maíra do MST é vereadora da cidade do Rio de Janeiro, professora de História e doutoranda em História pela UERJ.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.