Resumo objetivo:
A estudante Laila Duarte, aprovada em medicina em uma universidade federal (UFRB) longe de casa, optou por uma bolsa integral do Prouni em uma faculdade particular em sua cidade, Salvador. Sua decisão, motivada por custos de mudança e qualidade de vida, reflete uma tendência ampliada pela expansão das vagas em medicina na rede privada e pela entrada de grandes hospitais no ensino superior. Especialistas apontam que fatores como a valorização da saúde mental, proximidade familiar e a busca por estabilidade administrativa têm influenciado cada vez mais essa escolha em detrimento do prestígio das instituições públicas.
Principais tópicos abordados:
1. A decisão individual da estudante entre uma vaga em universidade pública (fora de sede) e uma bolsa em instituição privada (em sua cidade).
2. A expansão e atratividade crescente das vagas de medicina na rede privada, impulsionada por grandes hospitais.
3. A mudança de prioridades das novas gerações, que passam a valorizar mais qualidade de vida, saúde mental e estabilidade do que apenas o prestígio da instituição pública.
4. As desigualdades sociais e os desafios logísticos e financeiros que ainda limitam o acesso e a permanência de estudantes de baixa renda no ensino superior.
A estudante Laila Duarte, 19, tinha dois planos claros quando começou a se preparar para o vestibular. Queria cursar medicina e fazer isso em uma universidade federal. Conseguiu os dois. A aprovação veio pelo Sisu, a seleção unificada federal, para a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), mas a vaga ficava em Santo Antônio de Jesus, a mais de 190 km de Salvador, onde mora.
Ao mesmo tempo, ela obteve uma bolsa integral pelo Prouni na Unifacs (Universidade de Salvador), faculdade particular a apenas seis minutos de ônibus de casa. Diante da dúvida, decidiu permanecer na cidade, perto da famÃlia e com melhores condições de vida.
"Fiquei com medo de fazer uma má escolha, porque... Poxa, federal sempre foi meu sonho", disse ela. Apesar da gratuidade, o custo de moradia e alimentação pesou. "Medicina não tem como trabalhar. à o dia todo. Minha famÃlia teria que dar conta disso. Isso me chateou muito."
No Sisu, a primeira opção de Laila era a UFBA (Universidade Federal da Bahia), também em Salvador. Ela chegou a ser aprovada para medicina, mas entraves burocráticos na comprovação de documentos de cota impediram a matrÃcula. Foi então que a vaga na UFRB se tornou a alternativa pública disponÃvel.
A escolha de Laila pode parecer surpreendente, mas está longe de ser isolada, segundo especialistas ouvidos pela Folha. Para eles, a expansão de vagas em cursos de medicina na rede privada reduziu o custo simbólico de abrir mão de uma universidade pública.
Segundo o consultor em ensino superior João Vianney, sócio da Hoper Educação, a entrada de grandes hospitais no ensino médico mudou o cenário. Instituições privadas ligadas a estruturas hospitalares de alta complexidade passaram a disputar alunos com as federais.
De acordo com o Censo do Ensino Superior, as vagas em medicina na rede privada saltaram de 28 mil em 2019 para quase 42 mil em 2024, crescimento de 49% em cinco anos. No mesmo perÃodo, as instituições públicas saÃram de 11,5 mil para 13,7 mil vagas, expansão de 19%.
Em relação ao número de candidatos por vaga, particulares tiveram ligeiro aumento de 2023 a 2024, enquanto nas públicas o movimento foi contrário.
"Dentro da medicina, a entrada dos hospitais na formação médica mudou o jogo. Uma graduação do Einstein ou do SÃrio-Libanês rapidamente agrega um patamar de qualidade extremamente elevado", afirma Vianney.
A mudança também passa por uma geração que coloca saúde mental e proximidade familiar acima do prestÃgio institucional. De acordo com a professora Rosana Heringer, da Faculdade de Educação da UFRJ e especialista em ensino superior, esse movimento se tornou mais visÃvel após a pandemia. "Muitos estudantes começaram a ter muito mais dificuldades de lidar com situações de pressão", disse ela.
A pesquisadora estuda desigualdades no acesso à universidade e observa como contextos sociais no Brasil moldam essas escolhas de formas nem sempre óbvias. Segundo ela, tornou-se recorrente entre setores das classes mais altas justificar a preferência pela rede privada com argumentos ligados à rotina universitária, como greves e instabilidade administrativa.
Não é o caso de Laila. Aluna de escola pública, ela só conseguiu competir por uma vaga em medicina graças ao Projeto Gaus, ONG de São Paulo que financia e apoia estudantes da rede pública em cursinhos pré-vestibulares de alto desempenho. Foi pelo programa que ela estudou no Colégio Bernoulli em Salvador.
Quando questionada se trocaria a Unifacs por outra federal, ela é direta. Só voltaria atrás pela federal da Bahia. "A UFBA, pra quem é aqui do estado, é um sonho. à a âmais maisâ", disse.
No caso de medicina, Vianney diz que a nota do Enamed (novo exame do MEC que avalia cursos de medicina) também pode começar a pesar na escolha das universidades. Para Laila, o resultado da prova, divulgado em janeiro, foi importante para decidir qual particular de Salvador iria prestar pelo Prouni
DISTINÃÃO SOCIAL NO ENSINO SUPERIOR
A discussão entre universidade federal x universidade particular "bombou" nas redes sociais em fevereiro, quando viralizou um vÃdeo de Tulianne Maravilha, filha do ex-jogador de futebol Túlio Maravilha. Ela contou que recusou vagas na UFRJ, em nutrição, e na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em odontologia, para cursar o ensino superior em uma instituição privada.
No vÃdeo, a famÃlia argumenta que a escolha por uma instituição privada ajudaria a "manter os valores familiares". Segundo a jovem, os pais também consideram que a faculdade particular estaria mais alinhada à s convicções da casa, além de oferecer maior sensação de segurança, facilitar a logÃstica do dia a dia e permitir que ela permaneça perto de casa.
Para Heringer, o episódio repercutiu por tornar público o que costuma ficar restrito a conversas privadas. Ela cita o caso de famÃlias que recusam vagas em federais porque não querem que os filhos atravessem a Linha Vermelha do Rio de Janeiro para chegar ao campus, mesmo se tratando de uma universidade pública e gratuita.
Além disso, a pesquisadora diz que casos como esse também dialogam com um fenômeno mais amplo. à medida que o acesso à s universidades públicas se torna mais diverso, grupos antes privilegiados passam a buscar novas formas de distinção social, e a preferência por determinadas instituições privadas âou até mesmo por estudar no exteriorâ pode funcionar como um desses marcadores.
Em agosto, a Folha mostrou que, com restrições migratórias e incertezas para estudar nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, parte de estudantes brasileiros que planejava estudar fora passou a considerar universidades privadas de prestÃgio como alternativa. Instituições como FGV e ESPM relataram aumento na procura em seus processos seletivos por esse público.
No caso da medicina, a rápida expansão das faculdades privadas também alterou a dinâmica do mercado. Para Vianney, o paÃs já vive um cenário de superoferta de vagas, especialmente em cidades médias e pequenas. "Isso acaba pressionando os preços e reduzindo o valor das mensalidades em algumas regiões", afirma.
Segundo ele, o avanço de programas de crédito educativo, como o Fies, também facilita a decisão de estudar na rede privada. "Para uma famÃlia de classe média hoje, dá para manter um filho na medicina privada no interior pagando parte da mensalidade e financiando a outra metade."