Resumo objetivo:
O diretor congolês Dieudonné Niangouna fundou a companhia teatral Les Bruits de la Rue em 1997, durante a guerra civil no Congo, como um ato de resistência artística. Sua peça "Do Lado de Cá", apresentada na MITsp em São Paulo, aborda o exílio político e os traumas da imigração, inspirada em parte por sua própria condenação à morte após criticar eleições fraudulentas em seu país. O espetáculo, motivado pela ascensão do extremismo e da hostilidade contra imigrantes, utiliza seu método "big! boom! bah!" para criar uma resposta poética à violência.
Principais tópicos abordados:
1. Arte como resistência: O teatro como forma de confrontar a violência e a censura, especialmente em contextos de guerra e autoritarismo.
2. Exílio e imigração: As experiências traumáticas do deslocamento forçado e a crítica às políticas anti-imigração contemporâneas.
3. Método artístico: A criação do método "big! boom! bah!" como técnica cênica que traduz poeticamente a violência dos conflitos.
4. Engajamento artístico versus panfletário: A defesa de um posicionamento político inerente à prática teatral, mas distante de um tom meramente doutrinário.
Dieudonné Niangouna decidiu apostar na arte após ser confrontado pela violência. Em 1997, o Congo vivia uma guerra civil iniciada depois que grupos rebeldes tentaram derrubar o regime autoritário de Mobutu Sese Seko.
Em meio aos bombardeios, Dieudonné decidiu contrariar uma determinação que proibia peças teatrais no paÃs e criou a companhia Les Bruits de la Rue âalgo como "os barulhos da rua", em português.
"Não há razão maior para fazer teatro do que se encontrar em um lugar ou em um momento da história onde essa arte se torna problemática, complicada ou até proibida", diz Dieudonné. "Todo teatro é resistência diante das violências do mundo ou de si mesmo. Por isso, criei a Les Bruits de la Rue sob as bombas no Congo."
Essa dramaturgia da resistência estará em cartaz entre sexta-feira (13 ) e domingo (15), quando o congolês apresentará a peça "Do Lado de Cá" na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp. A peça nasceu a partir da experiência de Dieudonné enquanto alguém que precisou deixar a sua terra natal por motivos polÃticos.
Em 2015, ele foi condenado à morte após ter criticado as eleições fraudulentas do Congo, motivo pelo qual se refugiou na França. Espelhando essa realidade, "Do Lado de Cá" tem como fio condutor a vida de Dido, um ator que precisou fugir de seu paÃs após bombas explodirem durante uma de suas apresentações teatrais.
Considerado um inimigo público, ele vive exilado na Europa, onde é atormentado por traumas, culpas e memórias. Embora reflita parte da experiência de Dieudonné como exilado polÃtico, o espetáculo não tem natureza autobiográfica.
"Trata-se, na verdade, de uma obra de ficção realista", afirma o encenador. "O que diz o personagem que interpreto em âDo Lado de Cáâ não é próprio da minha vida, mas sim meu olhar sobre o mundo em um perÃodo da história dita por meio de um personagem ficcional."
A peça entra em cartaz no Brasil em um momento em que debates em torno da imigração estão na ordem do dia. Isso porque o governo de Donald Trump promove uma polÃtica anti-imigração que tem provocado protestos nos Estados Unidos.
"Fui motivado a fazer esse espetáculo por causa da ascensão dos extremismos, do ódio disseminado contra a imigração e por causa da censura contra artistas que não abraçam ideias hegemônicas", diz Dieudonné.
O congolês é um dos mais respeitados diretores em atividade do teatro francófono. Em 2021, recebeu um prêmio da Académie Française, autoridade máxima da lÃngua francesa, pelo conjunto de sua obra. Embora seu trabalho seja conhecido pela verve polÃtica, essa produção foge do tom panfletário.
"à polÃtico fazer teatro nas circunstâncias em que cresci. Assim como é eminentemente polÃtico fazer teatro em 2026", diz ele. "Mas isso não é um posicionamento polÃtico, muito menos um engajamento polÃtico. à um engajamento artÃstico de natureza teatral."
Dieudonné é conhecido também por ter criado o método "big! boom! bah!" âuma alusão ao barulho de bombas e granadas explodindo. Essa técnica consiste em um jogo cênico que começa calmo e vai se intensificando até detonar cenas de grande intensidade dramática.
"Essa é a resposta poética do teatro à s violências perpetradas durante os perÃodos de guerra no Congo. A poesia deve ter um outro olhar que não seja aquele influenciado pelas violências do mundo", diz o diretor. "à um teatro que se modifica a golpes de explosões poéticas."
Para o artista, a dramaturgia é um espaço de comunhão em que ele compartilha com o espectador temas que considera urgentes. "Atuar é se posicionar diante da curiosidade do espectador. à pela palavra que me aproximo do público. Eu trabalho essa palavra para que ela seja de essência poética e polÃtica."
Essa comunhão com o público, aliás, já salvou sua vida de forma literal. Durante a guerra civil congolesa, Dieudonné foi feito refém por uma milÃcia durante um ano e meio. Após esse perÃodo, os carrascos decidiram executá-lo. Um dos milicianos, porém, lembrou ter visto o artista em cena durante uma peça. Sensibilizado, decidiu poupar a vida do dramaturgo.
"O teatro salva todo mundo desde os primórdios dos tempos, a começar por aqueles que não sabem disso", diz Dieudonné. "Essa é justamente uma das forças do teatro â reviver a vida e afastar toda forma de morte."