[RESUMO] Em setembro de 2023, o governo federal concedeu a São LuÃs, no Maranhão, o tÃtulo de capital nacional do reggae, em reconhecimento à ampla influência do ritmo jamaicano na cultura da cidade nas últimas cinco décadas. Essa ligação histórica, contudo, corre risco a longo prazo, comenta pesquisador, pois pesquisas e evidências locais indicam que as novas gerações trocaram o reggae por outros tipos de música, fenômeno verificado até mesmo na Jamaica.
Apenas 4% dos jovens de São LuÃs do Maranhão, a Jamaica brasileira, estão ouvindo reggae. Além disso, a maior parte deles não frequenta mais os bailes do gênero. Podemos dizer que mudaram de endereço. Foram para o funk carioca e o trap, os ritmos em ascensão na capital, seguindo tendência nacional.
Os dados são de uma pesquisa exploratória que realizei entre os dias 5 e 27 de julho de 2023, em sete escolas públicas da capital maranhense (quatro da periferia, três do centro), contabilizando 958 estudantes entre 12 e 17 anos. Os resultados permaneciam inéditos até agora.
Eles seguem uma tendência nacional. O funk carioca, nos últimos anos, de acordo com matéria recentemente publicada pela revista britânica The Economist, está se transformando em um fenômeno não apenas brasileiro, mas global.
O reggae, por sua vez, pelo que indica a própria imprensa jamaicana, está em de declÃnio no mundo. Ao abordar o tema, o Jamaican Observer traz uma pergunta retórica: "O reggae está 'quase morto' na Europa?".
No prognóstico, colhido a partir de promotores de evento do velho continente, um deles se destaca: as novas gerações não demonstram o menor interesse pelo gênero, em particular os jovens abaixo de 25 anos.
Estima-se que o reggae, surgido na Jamaica no fim dos anos 1960, tenha aportado na ilha de São LuÃs em meados da década seguinte. Para quem desconhece a realidade local, podemos afirmar: de lá para cá, o ritmo transformou a vida de milhares, quiçá milhões, de pessoas; passou de estilo marginalizado e cultivado pela população negra e pobre, até os anos 1990, à peça chave para a eleição de parlamentares e até de governadores, posteriormente.
Se não bastasse, mudou a própria identidade da capital maranhense, que de "Atenas brasileira", como era conhecida nacionalmente, transformou-se em "Jamaica brasileira", tÃtulo referendado pelo governo Lula pela lei 14.668, em 2023, que reconheceu São LuÃs como a "capital nacional do reggae".
Seria um absurdo afirmar que o reggae está quase morto em São LuÃs hoje. Todavia, após essa escalada ascendente percorrida nas últimas décadas, claras evidências indicam que, na atualidade, o gênero enfrenta uma séria ameaça.
O recente apoio institucional, assim como a forte presença do ritmo na cidade, criam, de certa forma, uma áurea de pujança. Hoje, o Estado do Maranhão e a Prefeitura de São LuÃs, mesmo que parcamente, promovem a identidade da ilha como a Jamaica brasileira, investindo em eventos de reggae e mesmo em propaganda. Exemplo maior disso foi a criação do Museu do Reggae, instituição diretamente ligada ao Estado, em 2018.
O ritmo jamaicano está pulverizado por toda a cidade, em bares, clubes, ruas, no som que emana dos carros. Os eventos programados anualmente ainda atraem milhares de pessoas, como a Festa da Recordação, realizada há quase quatro décadas, no clube Espaço Aberto, no bairro do São Francisco, ou mesmo os tributos a lendas do reggae jamaicano, como Gregory Isaacs e John Holt, para citar dois exemplos. Entretanto, esse gigante aparente pode ter os pés de barro.
Essa presença ainda forte camufla um problema grave: o reggae em São LuÃs atravessa uma crise geracional. Para entender essa contradição, é necessário atentar para os detalhes. Há mais de uma década as enormes aparelhagens de som, as radiolas, perderam espaço em São LuÃs. Atualmente, tocam apenas em eventos programados ou em noites especiais, como a referida Noite da Recordação.
Os grandes shows com artistas jamaicanos e gigantescas radiolas ocorridos até meados dos anos 2000 são raros. A maioria dos clubes pioneiros já fechou as portas. O último deles, o Bar do Nelson, em atividade desde os anos 1990 e voltado para a classe média e turistas, encerrou suas atividades no ano passado.
Contudo, essas transformações, por si só, não indicam sinais de decadência, pois o mercado de entretenimento não é algo estático. Ainda se realizam shows anualmente com cantores jamaicanos, e os velhos clubes deram lugar também a novos, mesmo que em menor quantidade, assim como a diversos pequenos bares onde grupos de colecionadores de vinil tocam semanalmente. Afinal, o reggae não teria que permanecer, nem permaneceu, o mesmo por todo o sempre.
A questão é que, em meio a todas essas transformações, há um detalhe que não passa despercebido aos olhos de quem frequenta festas e clubes há algumas décadas, como o autor deste texto: o perfil dos frequentadores. Eis o cerne da questão.
"Uma festa de coroas"
Em 2025, em um evento anual em homenagem a Gregory Isaacs, uma historiadora baiana de passagem por São LuÃs, ao se deparar com o público de cerca de 4.000 pessoas, disparou: "Que massa! Uma festa de coroas, na Bahia não é assim!".
A percepção aguçada da pesquisadora, estranha ao meio do reggae maranhense, captou de imediato esse fator: o público que frequenta as festas de reggae em São LuÃs nitidamente envelheceu.
Nos últimos anos, os "regueiros", a clientela do reggae, tanto os das periferias quanto os de classe média, estão em uma faixa etária majoritariamente formada por pessoas acima de 30 anos âe uma grande parte acima dos 50.
Envelhecer é natural, não é um problema. Afinal, o ritmo jamaicano já fez cinco décadas em nossas paragens. O xis da questão é que o público do reggae não se renovou e não está se renovando.
Ao longo de anos, com observações e coleta de informação com donos de bares e frequentadores antigos de festas, percebi que as novas gerações não estão cultivando o reggae jamaicano, como o fizeram seus pais e/ou avós.
Segundo Jacira Silva, por exemplo, proprietária de um bar na praia da Ponta dâAreia, "se tu faz um funk, a fila dobra a rua de novinho, fica lotado, mas eles não consomem nada; já o reggae só dá coroa, mas eles bebem muita cerveja".
Não se trata de mera opinião. Elenco, a seguir, alguns dados coletados com base em questionário de múltipla escolha que apliquei em 2023, que indicam claramente uma tendência.
Como mencionei, foram abordados 958 estudantes de São LuÃs, entre 12 e 17 anos, sobre o gosto musical deles e o de seus pais. Do total, 76% desses jovens são pretos e pardos, e 19% são brancos; 40% são do sexo masculino, e 53% do feminino.
Resumidamente, pude concluir que nessa faixa etária predomina o consumo de trap (27%) e funk (26%), contando juntos 53%, seguido de longe pelo forró (9%). O reggae está entre os ritmos menos consumidos, ao lado do samba, ambos com 4%.
Em festas e aniversários frequentados por esses jovens, o funk é o tipo de música mais tocado (40%). O reggae fica na faixa de 5%, mesmo em bairros historicamente associados a ele, como Liberdade e Fátima.
Nas respostas a respeito dos ritmos mais ouvidos pelos pais, com média etária acima dos 30 anos, nota-se a clara mudança. O reggae toma a liderança com 19%, seguido do forró e samba com 18%. O funk e o trap, por sua vez, caem para 5% e 2 %, respectivamente.
Eis, em números, a crise geracional que ameaça a Jamaica brasileira. Parafraseando a constatação do jornal Jamaican Observer, podemos afirmar que em São LuÃs também as novas gerações estão distantes do reggae. O tema, é claro, merece um estudo mais aprofundado.
Contudo, pelo que indicam as evidências, passamos por algo similar ao que aconteceu na própria Jamaica dos anos 1980, quando o "roots reggae" foi deixado de lado pela juventude, encantada pelo dancehall, como aponta o pesquisador Norman Stolzoff.
à impossÃvel, particularmente a um historiador, prever o futuro, mas talvez daqui a duas décadas o reggae em São LuÃs venha a ser, como na Jamaica hoje, uma espécie de patrimônio histórico, que dá identidade ao paÃs, mas está relegado a museus e a um único clube, o Kingston Dub Club, sempre cheio ... de turistas.
Em outras palavras, caso não haja uma mudança de rota que atinja diretamente as novas gerações, o reggae na Jamaica brasileira, representação de uma pujante cultura afro diaspórica acolhida e semeada pela juventude negra dos anos 1970 a 1990, talvez se torne peça de museu: do Museu do Reggae.