Resumo objetivo:
O arquiteto chileno Smiljan Radic Clarke foi anunciado como o vencedor do Prêmio Pritzker de 2026. Sua obra se destaca por criar experiências espaciais sensoriais, que priorizam a luz, a atmosfera e a percepção corporal do espaço, em vez da forma puramente visual. O anúncio ocorreu em um contexto atípico, marcado pelo adiamento devido a polêmicas envolvendo o presidente da fundação responsável pelo prêmio e debates históricos sobre a falta de diversidade entre os laureados.
Principais tópicos abordados:
1. Anúncio do laureado: Smiljan Radic Clarke como vencedor do Pritzker 2026.
2. Características da obra do arquiteto: Ênfase na experiência sensorial e corporal, relação com a paisagem e tensão entre peso e leveza.
3. Contexto e polêmicas do prêmio: Adiamento do anúncio devido a vínculos entre a fundação e Jeffrey Epstein, e debates sobre a sub-representação de mulheres na história do prêmio.
4. Panorama arquitetônico chileno: Apresentação do Chile como um ambiente geográfico e cultural singular que influencia sua produção arquitetônica.
Mais importante prêmio de arquitetura do mundo, o Pritzker anunciou, na manhã desta quinta-feira (12), que o chileno Smiljan Radic Clarke é o laureado deste ano. Dono de projetos que privilegiam enquadramentos de luz e ambiências silenciosas, o arquiteto convida visitantes a explorar os espaços que concebe de forma fÃsica, por meio do corpo, não apenas com o olhar.
Criado em 1979 pela Hyatt Foundation, o Prêmio Pritzker já reconheceu mais de 50 arquitetos ao longo de sua história e consolidou-se como uma das principais distinções da arquitetura contemporânea. Entre as premiações internacionais, permanece como um dos indicadores mais influentes de reconhecimento profissional.
Ao mesmo tempo, a trajetória do prêmio também revela debates persistentes sobre representatividade na profissão. Apenas seis mulheres receberam a distinção até hoje, sendo Zaha Hadid, em 2004, a única a ser premiada individualmente. Reconhecimentos posteriores envolveram parcerias ou escritórios coletivos, como Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa em 2010, Carme Pigem com o RCR Arquitectes em 2017, Yvonne Farrell e Shelley McNamara em 2020 e Anne Lacaton, em 2021, ao lado de Jean-Philippe Vassal.
Ao longo dos anos, tanto a composição do júri quanto o perfil dos premiados passaram por transformações graduais, refletindo discussões mais amplas sobre diversidade e o papel social da arquitetura.
A edição de 2026 ocorre em circunstâncias incomuns. O anúncio do prêmio, tradicionalmente realizado na primeira semana de março, foi adiado após a divulgação de documentos que revelaram correspondências entre Tom Pritzker, presidente da Hyatt Foundation, instituição responsável pela premiação, e o financista pedófilo Jeffrey Epstein, condenado em 2008 por exploração sexual de menores.
Após a repercussão do caso, Pritzker renunciou ao cargo de presidente da Hyatt Hotels Corporation, afirmando ter exercido "péssimo julgamento" ao manter contato com Epstein. Em comunicado ao New York Times, a organização do prêmio afirmou que o júri continua operando de forma independente e "livre de influências externas". Foi nessa conjuntura que a premiação anunciou o laureado de 2026.
Radic emerge de um contexto arquitetônico singular. O Chile, separado do restante da América do Sul pela cordilheira dos Andes, limitado a oeste pelo oceano PacÃfico, ao norte pelo deserto do Atacama e ao sul pela gélida Patagônia, pode ser entendido como uma espécie de ilha. Nesse território estreito e extremo, desenvolveu-se nas últimas décadas uma cultura arquitetônica relativamente autônoma dentro do panorama latino-americano, marcada pela experimentação material, pela economia de meios e por uma relação visceral com a paisagem.
Segundo arquiteto chileno a receber o Pritzker, após Alejandro Aravena em 2016, Smiljan Radic Clarke trabalha desde 1995 em seu pequeno escritório homônimo em Santiago, onde construiu uma trajetória marcada por projetos que transitam entre casas isoladas na paisagem, equipamentos culturais e instalações experimentais.
Em sua obra, a arquitetura raramente se apresenta como um objeto formal autossuficiente. Em vez disso, surge como uma experiência espacial construÃda a partir da relação entre matéria, luz e atmosfera. Essa preocupação com a dimensão sensorial do espaço tornou-se um dos aspectos mais caracterÃsticos de seu trabalho.
Projetos como a Casa para o Poema do Ãngulo Reto, construÃda na floresta de Vilches, ou a ampliação do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, em Santiago, exploram percursos, enquadramentos de luz e ambiências silenciosas que impelem o visitante a perceber o espaço por meio do corpo, não só a visão. A arquitetura, nesses casos, não busca protagonismo imediato, mas funciona como um dispositivo que intensifica a experiência do lugar.
Outro aspecto recorrente em sua obra é a tensão entre peso e leveza. No Pavilhão da Serpentine Gallery, em 2014, em Londres, uma casca translúcida de fibra de vidro repousa sobre grandes rochas espalhadas pelo terreno, criando certa ambiguidade estrutural. Materiais tradicionalmente associados à solidez parecem sustentar volumes etéreos, enquanto uma estrutura aparentemente delicada demonstra uma surpreendente capacidade de suportar cargas. Estratégia semelhante aparece no Restaurante Mestizo, em Santiago, onde blocos de pedra posicionados no terreno sustentam vigas de concreto que fazem a cobertura parecer suspensa no ar.
Seus trabalhos evocam a ideia de construções frágeis. Muitos de seus edifÃcios parecem provisórios ou improvisados, como se pudessem desaparecer a qualquer momento. No entanto, essa fragilidade é cuidadosamente construÃda. Suas obras produzem uma arquitetura que parece eternamente temporária âestruturas concebidas para durar, mesmo quando sua aparência sugere o contrário. O Teatro Regional del BiobÃo, em Concepción, ilustra essa condição: envolto por uma membrana translúcida que à noite transforma o edifÃcio em uma espécie de lanterna, o volume parece leve e fugaz, embora esconda uma robusta estrutura dimensionada para responder à s exigências sÃsmicas do território chileno.
Essa dimensão de fragilidade aparece de forma ainda mais explÃcita em alguns de seus projetos experimentais. Em Guatero, instalação pneumática apresentada na Bienal de Arquitetura do Chile de 2023, uma membrana translúcida é inflada e convertida em espaço arquitetônico, criando um ambiente instável e luminoso que parece existir apenas enquanto está em uso. Já no Centro de Artes Performáticas Nave, em Santiago, Radic transforma uma antiga residência em um espaço cultural coroado com uma tenda de circo. Em ambos os casos, a arquitetura assume deliberadamente uma condição provisória, como se estivesse sempre à beira da dissolução.
Em contraste com um mundo cada vez mais marcado por imagens icônicas e gestos monumentais, Smiljan Radic aponta para outra direção. Seus edifÃcios raramente buscam impacto imediato. Em vez disso, operam em uma escala mais silenciosa, explorando tensões entre matéria, gravidade e percepção. Ao fazê-lo, revelam uma arquitetura que parece sempre efêmera âe que talvez justamente por isso permaneça no tempo.