Resumo objetivo:
O ministro da Defesa, José Mucio, usou o conflito no Irã para defender um aumento dos gastos militares brasileiros de 1% para pelo menos 2% do PIB, visando ampliar o poder de dissuasão do país. O articulista contesta veementemente essa visão, argumentando que dissuadir os EUA é irrealista e que o foco realista da defesa brasileira deve ser a dissuasão regional, o que não exigiria um grande aumento de gastos.
Principais tópicos abordados:
1. A proposta do Ministro da Defesa para aumentar os investimentos militares.
2. A crítica à justificativa e ao objetivo estratégico (dissuasão contra os EUA) apresentados pelo ministro.
3. A análise realista das capacidades necessárias para a defesa do Brasil, focada na dissuasão regional.
4. A menção à sensibilidade política e econômica dos EUA em conflitos prolongados, mesmo com sua superioridade militar.
O ministro da Defesa, José Mucio, se valeu da guerra no Irã para pedir mais recursos para as Forças Armadas. Na visão de Mucio, a escalada bélica no Oriente Médio mostra que o Brasil precisa ampliar seu poder de dissuasão militar. Investimos hoje 1% do PIB em defesa e, no entender do ministro, precisarÃamos aplicar no mÃnimo 2%. Ele diz que há paÃses gastando até 7% nessa rubrica.
Eu não poderia discordar mais. No mÃnimo, o ministro escolheu o pretexto errado. Ampliar nosso poderio a ponto de dissuadir os EUA de nos atacarem exigiria investir por décadas 100% do PIB. Não vai acontecer. Nenhum paÃs do mundo tem hoje bala na agulha para derrotar os americanos num mano a mano militar convencional. E não acho que seja o caso de apelar para bombas atômicas ou para a guerra quÃmica e biológica.
O que podemos ambicionar realisticamente em termos de defesa é reunir poderio bélico para dissuadir nossos vizinhos de nos atacarem. E, para isso, não precisamos investir muito mais do que o 1%. Vale lembrar que, diferentemente de outras nações, não temos nenhum grande contencioso territorial com ninguém. De todo modo, se o establishment militar quiser mais dinheiro para projetos estratégicos, é só reduzir os gastos com aposentadorias, que seguem lógica perdulária.
O fato de os EUA possuÃrem as mais formidáveis Forças Armadas do planeta não garante que vençam todos os conflitos em que se metem. Eles perderam há pouco a guerra no Afeganistão, um "investimento" de 20 anos e US$ 2,3 trilhões. Se os EUA são militarmente quase imbatÃveis, são sensÃveis polÃtica e economicamente. Um paÃs que tenha disposição para enfrentá-los por um longo tempo, mesmo sofrendo grande devastação, acaba por esgotar a paciência do público americano e da Casa Branca âespecialmente se o conflito cobrar a vida de soldados dos EUA e gerar algum ônus econômico.
A Venezuela preferiu não fazer essa aposta. O Irã parece ir pelo caminho oposto. Se a tolerância dos americanos a perdas é baixa, a de Donald Trump é menor ainda.