Resumo objetivo:
A guerra entre EUA/Israel e Irã causou um aumento abrupto no preço do petróleo, ultrapassando US$ 100, devido ao fechamento virtual do Estreito de Hormuz. O conflito também afeta a produção global de alimentos, pois interrompe a exportação de fertilizantes nitrogenados da região, essenciais para a agricultura. Especialistas alertam que, se a situação persistir, os impactos podem levar à escassez e à alta nos preços dos alimentos em todo o mundo.
Principais tópicos abordados:
1. Aumento do preço do petróleo e o fechamento do Estreito de Hormuz.
2. Disrupção na produção e exportação de fertilizantes, afetando a segurança alimentar global.
3. Possíveis consequências futuras: alta de preços, escassez de alimentos e risco de fome em países mais pobres.
Pouco mais de uma semana após o inÃcio da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito já causa impacto na economia global.
Na segunda-feira (9), o preço do petróleo bruto Brent e WTI, referências do mercado internacional, ultrapassou a marca de US$ 100 (R$ 520) pela primeira vez desde 2022, embora tenha caÃdo para menos de US$ 95 (R$ 494) no mesmo dia.
Em comparação, em 27 de fevereiro, um dia antes do inÃcio das hostilidades, o preço do petróleo bruto Brent e WTI rondava os US$ 70 (R$ 364) por barril.
Este aumento nos preços dos combustÃveis ocorreu principalmente devido ao virtual fechamento do tráfego marÃtimo pelo estreito de Hormuz, após o governo iraniano ameaçar navios que tentassem atravessar essa hidrovia, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e gás do mundo.
Mas, embora o aumento dos preços do petróleo âe da gasolinaâ fosse claramente esperado, visto que o conflito envolve o Irã e o estreito de Hormuz, especialistas preveem que suas repercussões serão sentidas em outras áreas da economia e em diferentes partes do mundo.
A BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, fala sobre três desses efeitos.
1. PRODUÃÃO DE ALIMENTOS SOB RISCO
Os fertilizantes nitrogenados são utilizados em culturas que produzem cerca de metade dos alimentos disponÃveis no mundo.
O conflito atual está afetando os principais exportadores de fertilizantes.
Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Ãrabes Unidos são quatro dos maiores exportadores globais de fertilizantes nitrogenados, segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica.
Esse tipo de fertilizante é produzido a partir de gás natural e é utilizado em plantações que produzem cerca de metade do suprimento mundial de alimentos.
Embora a maioria dos produtores de fertilizantes da região tenha continuado operando apesar da guerra, a QatarEnergy, uma das principais produtoras de ureia, teve que suspender suas operações após o fornecimento de gás ter sido interrompido na semana passada devido a ataques de drones e mÃsseis iranianos.
Além disso, os benefÃcios da continuidade das operações dessas empresas são limitados pelo fato de que elas não conseguem exportar seus fertilizantes devido ao fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa um terço do suprimento mundial de fertilizantes, de acordo com a Bloomberg.
A isso se soma o fato de o Irã também ser exportador de fertilizantes e a decisão da China, adotada no final de 2025, de suspender as exportações de fertilizantes fosfatados e restringir severamente as exportações de ureia até agosto de 2026, com o objetivo de garantir o abastecimento aos agricultores locais.
Ainda segundo o Observatório da Complexidade Econômica, a China é a maior exportadora mundial de fertilizantes nitrogenados.
Como consequência disso, os preços dos fertilizantes já começaram a subir significativamente. No Porto de Nova Orleans, principal ponto de entrada desses produtos nos EUA, o preço dos fertilizantes saltou de US$ 516 (R$ 2.684) por tonelada métrica para US$ 683 (R$ 3.552) durante a primeira semana da guerra de preços.
E essa situação ocorre justamente na época do ano em que os agricultores do Hemisfério Norte se preparam para o plantio, o que complica ainda mais o cenário.
De acordo com dados da Federação Americana de Escritórios AgrÃcolas (FAR, na sigla em inglês), 25% das importações de fertilizantes do paÃs ocorrem entre março e abril de cada ano.
"Isso não poderia ter acontecido em pior hora", afirmou o agricultor Harry Ott, que cultiva algodão, milho e soja na Carolina do Sul, nos EUA.
Analistas preveem que, caso o conflito continue, os consumidores começarão a sentir o impacto nos preços dos alimentos dentro de um a três meses, enfrentando custos mais altos e escassez, já que as colheitas serão menores sem a quantidade necessária de fertilizantes.
Essa situação pode se traduzir em fome para os paÃses e pessoas mais pobres.
"O aumento repentino dos preços dos alimentos e combustÃveis, impulsionado pela escalada do conflito no Oriente Médio, pode ter um efeito dominó que agravará a fome para as populações vulneráveis na região e em outras partes do mundo", alertou o Programa Mundial de Alimentos da ONU em um comunicado.
2. RESTRIÃÃO DA DISTRIBUIÃÃO GLOBAL DE MEDICAMENTOS
A guerra em curso no Oriente Médio também está impactando a cadeia de suprimentos global de medicamentos e produtos farmacêuticos.
Isso se deve principalmente aos ataques sofridos por Dubai, um importante centro logÃstico no setor farmacêutico global.
A cidade mais populosa dos Emirados Ãrabes Unidos abriga o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, que recebeu aproximadamente 95 milhões de passageiros em 2025.
Este aeroporto também é um importante centro de distribuição de cargas para medicamentos e outros produtos farmacêuticos, especialmente aqueles que exigem manutenção da cadeia de frio.
A indústria farmacêutica da Ãndia, a maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e que produz 60% das vacinas do mundo, de acordo com dados do Departamento de Comércio da Ãndia, tem como o aeroporto de Dubai um ponto estratégico de distribuição.
A companhia aérea Emirates possui um terminal de cargas chamado Emirates SkyPharma, construÃdo especificamente para lidar com remessas farmacêuticas sensÃveis à temperatura. Dubai também possui o Porto de Jebel Ali, considerado o nono porto de cargas mais movimentado do mundo e o maior do Oriente Médio.
Segundo a Jafza (Autoridade Portuária de Jebel Ali), cerca de 400 empresas farmacêuticas e de saúde de 60 paÃses operam no porto. A Jafza destaca que, em 2020, 50% dos produtos farmacêuticos e de saúde de Dubai, avaliados em US$ 21,8 bilhões (R$ 113,4 bilhões), passaram por este porto.
As exportações farmacêuticas indianas também transitam por este porto, de onde os produtos são enviados para outros paÃses do Golfo Pérsico, Ãfrica, Europa e outros destinos.
Os ataques militares iranianos causaram danos tanto ao porto quanto ao aeroporto de Dubai, interrompendo as operações normais devido ao conflito. O transporte aéreo de carga é crucial para a indústria farmacêutica, especialmente para remessas de alto valor ou que exigem entrega urgente ou controle de temperatura.
Embora existam algumas rotas alternativas para Dubai, muitas têm menor capacidade para lidar com esses volumes de carga, exigem dias adicionais de viagem e incorrem em custos mais elevados, o que pode, em última análise, aumentar o preço e a disponibilidade desses produtos. De acordo com o Departamento de Comércio da Ãndia, a indústria farmacêutica do paÃs exportou produtos para 200 paÃses em todo o mundo, sendo os EUA, o Reino Unido, o Brasil, a França e a Ãfrica do Sul os principais destinos.
O aeroporto e as instalações portuárias de Dubai funcionam simultaneamente como centros de armazenamento e reexportação desses medicamentos, desempenhando, assim, um papel central no setor farmacêutico global.
3. PRODUÃÃO DE METAIS, SUBSTÃNCIAS QUÃMICAS E ELETRÃNICOS
A distribuição de elementos quÃmicos como enxofre e de matérias-primas como alumÃnio, que desempenham um papel fundamental na produção industrial, também está sendo impactada pela guerra.
PaÃses como Arábia Saudita, Emirados Ãrabes Unidos, Qatar, Kuwait e Irã estão entre os principais exportadores de enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás.
De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, 24% da produção mundial de enxofre tem origem no Oriente Médio.
Grande parte dessa produção é utilizada para fertilizantes, mas também tem usos importantes na extração de minerais e metais como cobre e nÃquel, essenciais para a produção de eletrodomésticos, veÃculos, redes elétricas, semicondutores, baterias e materiais como aço inoxidável, entre muitas outras aplicações.
Nesse setor, os efeitos da guerra já são sentidos. Durante a primeira semana do conflito, companhias mineradoras de nÃquel na Indonésia âpaÃs responsável por mais de 50% do nÃquel mundialâ anunciaram cortes na produção devido a interrupções no fornecimento dos paÃses do Golfo, que fornecem 75% do enxofre utilizado por essas empresas.
Como alertou a Reuters, alguns produtores de cobre na Ãfrica provavelmente enfrentam uma situação semelhante.
"Uma disputa pela oferta colocaria refinarias de nÃquel indonésias contra mineradoras de cobre africanas, e ambas contra fabricantes de fertilizantes em todo o mundo, que também buscam substitutos para o enxofre do Oriente Médio", observou a Reuters.
Como o ácido sulfúrico âque é produzido com enxofreâ é um dos componentes mais importantes para a fabricação de semicondutores e chips, interrupções no fornecimento desse produto quÃmico podem impactar a produção de inúmeros produtos considerados essenciais na vida moderna, como smartphones, computadores, cartões de memória, veÃculos e inúmeros dispositivos eletrônicos usados em residências, empresas e fábricas.
Esta não é a primeira vez que o mundo enfrenta uma situação como essa. Durante a pandemia de Covid-19, a escassez de chips impactou tanto os volumes de produção desses dispositivos quanto o preço final que os consumidores tiveram que pagar.
Desta vez, há um fator adicional: a alta demanda por chips por parte de empresas que desenvolvem e implementam modelos de inteligência artificial.
Texto publicado originalmente aqui