Resumo objetivo:
A notícia relata o crescente interesse pela cultura brasileira na China, exemplificado por estudantes chineses que planejam intercâmbios no Brasil e por eventos como o "CarnaPequim", uma festa de carnaval organizada em Pequim que atraiu centenas de pessoas, metade delas chinesas. Paralelamente, destaca-se a percepção de que Portugal investe mais na divulgação de sua variante do idioma português na China do que o Brasil, cuja cultura ainda é associada principalmente a estereótipos como futebol e samba. A recente isenção de vistos entre os dois países é vista como um sinal concreto do aprofundamento das relações bilaterais.
Principais tópicos abordados:
1. Intercâmbio cultural e acadêmico Brasil-China (estudantes chineses na USP, ensino de português).
2. Eventos de difusão da cultura brasileira na China (como o "CarnaPequim").
3. Divulgação limitada da cultura brasileira na China em comparação com os esforços portugueses.
4. Medidas diplomáticas recentes (isenção de vistos) como impulso para as relações bilaterais.
A chinesa Wu Yingyuan está empolgada com visitar o Brasil pela primeira vez. Na metade do ano ela vai desembarcar em São Paulo para estudar literatura durante um ano na Universidade de São Paulo (USP), como parte do acordo entre a instituição brasileira e a Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, onde Wu estuda. Ela já conhece, inclusive, algumas das gírias paulistanas. “No Brasil, cada região tem uma gíria e eu acho muito engraçado”, conta, entre risos, falando: “podepá”, “beleza”, “tá de boa?”.
Wu, que escolheu o nome brasileiro Helena, esteve entre as várias jovens chinesas que foram ao CarnaPequim no último fim de semana. A festa de carnaval é organizada por um grupo de brasileiras que mora na capital chinesa.
A iniciativa partiu da saudade. Mariana Canuto, professora de português na Universidade Jiaotong, conta que a ideia veio de forma quase espontânea. “A gente estava com muita saudade do Brasil e o carnaval bombando lá. Então resolvemos organizar algo para poucos amigos, para poucas pessoas. Fizemos um cartaz e começamos a espalhar e foi crescendo cada vez mais. De um tamanho que a gente não imaginava. E deu isso aqui. Quase 200 pessoas”.
O que surpreendeu as organizadoras não foi só a adesão, mas a composição do público: metade dos presentes era composta por chineses. Mariana destaca que a presença asiática superou a expectativa inicial de proporcionar apenas um espaço para matar saudades do Brasil num momento em que, em Pequim, a temperatura ainda chega a ter um dígito. “Os chineses estão sempre muito abertos. São muito curiosos em relação ao Brasil, e sempre estão muito ativos”, diz. “Acho que é super importante eles conhecerem um pouco da gente de verdade. E acho que essas festas, esses encontros são sempre muito bem-vindos e gostosos. É uma maneira legal de a gente construir essa ponte entre os dois países”.
O interesse não se limita às gírias ou ao samba. He Yuping, de nome brasileiro Benedita, também estuda português com vídeos brasileiros e quer visitar o país em breve. “Acho que os brasileiros são muito calorosos e eu gosto das festas do Brasil. Gosto da natureza do Brasil e também gostaria de ir ao Brasil no futuro”, conta.
Recorrer a vídeos da internet brasileira não é por acaso. Uma boa parte do português ensinado na China ainda é o da versão portuguesa do idioma. Erasto Santos Cruz, professor de literatura em língua portuguesa na Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, considera que o Estado português tem investido mais do que o brasileiro numa relação cultural sistemática com a China.
“Portugal investe nessa parte de divulgação do próprio idioma, da variante portuguesa, e o Brasil não tem esse cuidado aqui na China. Aqui em Pequim, por exemplo, falta divulgação da cultura brasileira. Você pergunta para um chinês o que ele sabe do Brasil: futebol e samba, acabou. Então é a divulgação cultural em si o que falta”, afirma o professor.
O estudante Li Ruizhe, o André, também fará intercâmbio na USP no ano que vem. Ele teve como opções ir ao Brasil, Macau ou Portugal. “Gosto muito da cultura brasileira e gosto muito dos brasileiros, então, optei por ir para o Brasil”.
Para ele, a recente isenção de vistos é um sinal concreto da direção que a relação entre os dois países está tomando. No ano passado, o Brasil foi um dos cinco países latino-americanos isentos de visto para entrar na China por até 30 dias. No começo deste ano, o governo Lula anunciou uma medida recíproca, que ainda não entrou em vigor. “Acho que foi uma demonstração de que as relações entre a China e o Brasil estão melhorando cada vez mais”, afirma André.
Entre os presentes estava também Liu Xiaoyan, artista que afirma ser o primeiro professor chinês de samba da China. Sua ligação com o Brasil dura mais de uma década e, há dois anos, uma professora brasileira lhe ensinou o samba “de verdade”. Desde então, dedica-se a promover a dança no país.
O evento acontece no Ano Cultural Brasil-China, iniciativa conjunta dos presidentes Lula e Xi Jinping que visa intensificar o intercâmbio entre os dois países por meio de exposições, festivais, apresentações artísticas e programas educacionais. “Acredito que iniciativas como estas levarão cada vez mais chineses a conhecer, compreender e apreciar o Brasil”, diz Liu.
Para Liu Xiaoyan, o que aconteceu no CarnaPequim é parte de um movimento maior, que ele acompanha de perto há anos. “À medida que a amizade entre China e Brasil se aprofunda, o povo chinês tem se tornado cada vez mais apaixonado pelo Brasil, e acredito que os brasileiros sentem o mesmo pelo nosso país”, afirma.