Resumo objetivo:
Um estudo brasileiro publicado na PLOS One associou maior bem-estar espiritual, especialmente os sentimentos de paz interior e propósito de vida, a uma melhor saúde dos vasos sanguíneos e a um menor risco de disfunção endotelial, um marcador precoce de doenças cardiovasculares. A pesquisa, que diferenciou espiritualidade (conceito amplo de significado) de religiosidade (prática específica), sugere que esse estado interno de equilíbrio pode beneficiar a saúde vascular ao ajudar a reduzir mecanismos biológicos ligados ao estresse e à inflamação.
Principais tópicos abordados:
1. A relação entre bem-estar espiritual (paz interior e propósito) e saúde cardiovascular.
2. A disfunção endotelial como marcador de risco e seu funcionamento.
3. A distinção entre espiritualidade (sentido de vida) e religiosidade (prática de uma fé).
4. O mecanismo biológico proposto, ligado à redução do estresse e da inflamação.
5. A crescente importância de abordar a saúde psicológica na prevenção cardiovascular.
Ter um propósito na vida e a sensação de paz interior pode estar associado a uma melhor saúde dos vasos sanguÃneos e, consequentemente, a um menor risco de doenças cardiovasculares. A constatação é de um estudo brasileiro realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e publicado em dezembro na revista cientÃfica PLOS One.
A pesquisa investigou a relação entre bem-estar espiritual e disfunção endotelial, um marcador precoce de risco cardiovascular. O endotélio é uma camada fina de células que reveste o interior dos vasos sanguÃneos e desempenha papel essencial no funcionamento da circulação. Ele ajuda a controlar a dilatação e a contração das artérias, além do fluxo sanguÃneo, da inflamação e até a formação de coágulos.
Quando o endotélio perde a capacidade de funcionar adequadamente, surge a chamada disfunção endotelial. "Os vasos passam a ter mais dificuldade de se dilatar, há maior inflamação vascular, vasoconstrição, aumento da permeabilidade e coagulação", explica o cardiologista Marcelo Franken, do Einstein Hospital Israelita.
No estudo, observou-se que nÃveis mais elevados de bem-estar espiritual estavam associados a menor probabilidade de disfunção endotelial, inclusive considerando fatores como Ãndice de massa corporal (IMC), ansiedade e depressão. A espiritualidade foi analisada a partir de um questionário.
"Investigamos três dimensões principais da experiência espiritual: paz interior, sentido ou propósito de vida e fé. Por meio de perguntas simples, o questionário busca captar como a pessoa vivencia essas dimensões no dia a dia, permitindo transformar uma experiência subjetiva em um indicador mensurável para pesquisa cientÃfica", afirma o cardiologista André Casarsa, um dos autores do estudo.
Os autores avaliaram 148 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos. Os participantes passaram por exames para avaliar a saúde dos vasos sanguÃneos e responderam sobre sintomas de ansiedade, depressão e espiritualidade, sem relação com alguma religião especÃfica.
A diferenciação entre espiritualidade e religiosidade é importante. "A religiosidade refere-se ao quanto cada pessoa acredita, segue ou pratica uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um conceito mais amplo, presente em todas as pessoas, independentemente de serem religiosas ou não. Envolve a busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros ou com aquilo que a pessoa considera sagrado", diz Julio Tolentino, professor de medicina do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, da Unirio (Huse-Unirio), e orientador do estudo.
Entre os achados, as sensações de paz interior e sentido de vida foram as que mais se associaram à saúde vascular. A fé religiosa isoladamente não mostrou o mesmo benefÃcio. "Isso sugere que o que parece ter maior impacto biológico não é necessariamente a prática religiosa em si, mas um estado interno de equilÃbrio, significado e coerência com a própria vida", afirma Casarsa.
Estresse e saúde do coração
Na cardiologia, já existem evidências mostrando que fatores psicológicos, estresse, ansiedade e depressão influenciam na saúde cardiovascular. Na investigação da Unirio, uma das hipóteses levantadas é de que estados associados a paz interior e propósito de vida ajudariam a reduzir mecanismos biológicos ligados ao estresse. "A redução do estresse e da inflamação é um dos principais mecanismos de proteção vascular e isso vem sendo estudado há muitos anos", diz Franken.
Embora a espiritualidade ainda seja pouco discutida nas consultas médicas de rotina, a saúde emocional e psicológica tem ganhado espaço na prevenção cardiovascular. "Cada vez mais se recomenda que a saúde psicológica seja abordada durante as consultas, incluindo fatores como senso de propósito, otimismo, gratidão, pertencimento, mindfulness, estresse crônico, depressão e ansiedade", diz o cardiologista do Einstein.
Ainda assim, os pilares clássicos da saúde do coração continuam fundamentais. "Podemos destacar oito: alimentação saudável, atividade fÃsica, não fumar, boa qualidade do sono, controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e do diabetes", afirma Marcelo Franken. "Além disso, também é importante lembrar da saúde psicológica e dos determinantes sociais de saúde, como condições de moradia, trabalho e relações sociais."
Os pesquisadores da Unirio pretendem avançar na investigação e acompanhar os mesmos participantes por mais tempo para avaliar se nÃveis mais elevados de bem-estar espiritual se associam a menor risco de desenvolver alterações vasculares ou doenças cardiovasculares.
O grupo também planeja estudos de intervenção baseados em espiritualidade. "Estamos desenvolvendo pesquisas com estratégias como meditação, visualização terapêutica e experiências imersivas com realidade virtual, que podem promover relaxamento profundo e reduzir o estresse", relata Tolentino.