Resumo objetivo:
O governo dos EUA organizará um seminário em São Paulo, em 18 de março, sobre minerais críticos e terras raras, visando ampliar a cooperação com o Brasil nesse setor estratégico. O evento demonstra o interesse americano em reduzir a dependência da China nessas cadeias produtivas, aproveitando o potencial brasileiro, que detém a segunda maior reserva mundial de terras raras. A possível presença de autoridades como Darren Beattie, do Departamento de Estado, gerou atrito devido a sua visita paralela ao ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão.
Principais tópicos abordados:
1. Cooperação EUA-Brasil em minerais estratégicos: Interesse dos EUA em explorar o potencial brasileiro de terras raras para diversificar as cadeias de suprimentos e reduzir o domínio chinês.
2. Importância geopolítica e econômica: Os minerais são vitais para transição energética, tecnologia e defesa, estando no centro da disputa entre EUA e China.
3. Logística e participantes do evento: Envolvimento de agências americanas, setor privado e possíveis representantes brasileiros, como o BNDES.
4. Tensão política paralela: A visita do conselheiro americano Darren Beattie ao Brasil, que incluirá o seminário e uma visita controversa a Jair Bolsonaro na prisão.
O governo de Donald Trump vai organizar, na próxima semana em São Paulo, um seminário sobre minerais crÃticos e terras raras numa nova demonstração do interesse que os Estados Unidos têm na exploração desse setor no Brasil.
O evento está programado para 18 de março e deve contar com a presença de autoridades americanas e lideranças do setor privado.
Do lado brasileiro, a expectativa é que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) envie um representante. Não há informações sobre a presença de ministros do governo Lula (PT) no seminário.
Procurado pela Folha sobre quem representaria o banco, o BNDES não respondeu.
O Brasil é visto como estratégico pelos Estados Unidos no esforço de reduzir o domÃnio da China sobre as cadeias de produção de minerais crÃticos e terras raras.
Esses minerais são um conjunto de elementos usados na fabricação de produtos ligados à transição energética, além de outros itens estratégicos, inclusive da área de defesa. O controle sobre esses insumos está no centro da disputa geopolÃtica entre Estados Unidos e China.
De acordo com publicação do Serviço Geológico do Brasil, o paÃs detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com aproximadamente 21 milhões de toneladas. Isso representa cerca de 23% das reservas globais.
Um integrante do governo dos EUA disse à Folha que, além das reservas conhecidas, o potencial do Brasil também está relacionado ao fato de haver grandes depósitos ainda não explorados.
São esperadas autoridades americanas do Departamento de Estado, do Departamento de Energia, do EXIM Bank (banco de fomento às exportações dos EUA), da DFC (Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos) e do Southcom (Comando Sul dos EUA), entre outros.
A participação do comando americano responsável por operações na América Latina e no Caribe é um indicativo da importância que os EUA atribuem à s dimensões militares dos minerais crÃticos e das terras raras.
Procurada, a embaixada americana em BrasÃlia afirmou que os "Estados Unidos, em parceria com o Citi, a Amcham Brasil [Câmara Americana de Comércio para o Brasil], o Brazil-U.S. Business Council e o Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), estão organizando um fórum a ser realizado em março, dedicado ao amplo potencial de cooperação entre Brasil e Estados Unidos no desenvolvimento de minerais crÃticos, um tema estratégico para a transição energética, a inovação tecnológica e o fortalecimento das cadeias produtivas".
Já a Amcham Brasil afirmou, em nota, que o encontro visa discutir tecnicamente oportunidades entre Brasil e Estados Unidos, "desde o mapeamento e exploração até o processamento e a agregação de valor, com benefÃcios para ambos os paÃses".
"A Amcham Brasil vem realizando iniciativas sobre o tema desde 2023 e entende que ele representa uma oportunidade relevante para ampliar a atração de investimentos, fortalecer a industrialização e aumentar a competitividade do Brasil, além de ser uma área com grande potencial para aprofundar a cooperação bilateral com os Estados Unidos".
A possÃvel presença no seminário do conselheiro para relações com o Brasil no Departamento de Estado dos EUA, Darren Beattie, se tornou um ponto de atrito entre os governos dos EUA e do Brasil. Interlocutores disseram à Folha que Beattie seria um dos representantes americanos no evento.
Beattie estará em visita oficial ao Brasil e foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão, em BrasÃlia.
Em ofÃcio encaminhado ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, o chanceler Mauro Vieira disse que Beattie viria ao paÃs para participar do evento sobre minerais em São Paulo e que a visita a Bolsonaro não guarda relação com o objetivo alegado pelo americano para a agenda no Brasil.
A Amcham Brasil, coorganizadora do seminário, diz que a presença de Beattie não está prevista.
Minerais crÃticos são vistos como uma área que pode aproximar os governos de Trump e Lula. O interesse dos americanos pelas reservas do Brasil é anterior à gestão do republicano, e Washington apresentou a autoridades brasileiras uma proposta de acordo de cooperação nesse segmento.
Segundo pessoas com conhecimento do tema, os termos do acordo defendidos pelos EUA são parecidos com os de entendimentos recentemente assinados com Austrália e Japão.
A forte presença chinesa nesse mercado sempre permeou as preocupações dos americanos.
Em agosto do ano passado, o Instituto Americano de Ferro e Aço (AISI) afirmou ao governo Trump que a concretização da venda de plantas de nÃquel no Brasil para a MMG, um braço da estatal China Minmetals Corporation, daria aos chineses "influência direta" sobre grande parte das reservas internacionais e potencializaria "vulnerabilidades na cadeia de suprimentos para esse mineral crÃtico".
A manifestação da AISI foi protocolada no âmbito de uma investigação comercial aberta pela gestão Trump contra o Brasil.