Resumo objetivo:
O conflito no Irã, ao causar uma grave crise no fornecimento global de petróleo e gás, está levando governos a repensar sua oposição à energia nuclear em busca de segurança energética. A indústria nuclear, que já vinha em recuperação após a guerra na Ucrânia, vê essa crise como um impulso adicional para um "renascimento", com aumento recorde de pedidos e apoio político. Analistas destacam que, embora a energia nuclear não resolva a crise imediatamente, ela é vista como uma fonte estável e independente para o longo prazo.
Principais tópicos abordados:
1. Crise de segurança energética: A interrupção no fornecimento de petróleo e gás devido ao conflito no Irã está forçando governos a buscar fontes de energia mais estáveis e independentes.
2. Renascimento da energia nuclear: A indústria nuclear experimenta uma retomada global, impulsionada pela guerra na Ucrânia e agora pela crise no Oriente Médio, com aumento de pedidos e apoio político.
3. Vantagens da energia nuclear: É destacada como uma fonte de energia de base confiável, com cadeia de suprimentos estável, baixa necessidade de reabastecimento e capacidade de armazenamento de combustível.
4. Mudança de posição política: Líderes e governos (como a UE e o Japão) estão revisando suas políticas, reconhecendo a energia nuclear como estratégica para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
A indústria nuclear está pronta para capitalizar a guerra de Donald Trump no Irã. O conflito levou governos ao redor do mundo a buscar fontes de energia mais estáveis e de baixo custo e a repensar a resistência anterior à energia atômica.
Boris Schucht, CEO da Urenco, parcialmente controlada pelos governos do Reino Unido e da Holanda, disse ao FT que um "renascimento nuclear" já estava em curso e se aceleraria devido ao choque causado pela escassez de petróleo e gás provocada pelo fechamento do estreito de Hormuz.
Segundo ele, a empresa acumulou uma carteira recorde de pedidos de US$ 21,3 bilhões para seus produtos de urânio e combustÃvel.
"A crise de abastecimento no Oriente Médio fará com que formuladores de polÃticas e a indústria voltem a focar na segurança energética e na necessidade de ter alguma forma de energia de base que seja independente de ameaças ao fornecimento", afirmou. "Isso tornará a implantação da energia nuclear ainda mais importante."
Após uma década de contração na dependência de energia nuclear por paÃses ocidentais, na sequência do acidente nuclear de Fukushima em 2011 no Japão, a indústria começou a ver uma retomada depois que a guerra da Ucrânia ameaçou o fornecimento de petróleo e gás. A alta de preços ligada à crise no Irã levará mais uma vez governos a reconsiderar sua oposição sobre energia nuclear, dizem analistas.
Em discurso na terça-feira (10), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que reduzir o setor nuclear da Europa foi um "erro estratégico", já que o continente enfrentou custos crescentes ao depender de fontes de geração de energia a petróleo e gás.
O Japão, que marcou o 15º aniversário do desastre de Fukushima nesta quarta-feira (11), também está pressionando para acelerar a retomada de reatores desativados.
A cadeia de suprimentos de combustÃvel nuclear é muito mais estável do que a de combustÃveis fósseis porque os volumes exigidos pelas concessionárias são muito pequenos, não requerem reabastecimento frequente e o combustÃvel pode ser facilmente armazenado, disse Schucht. As concessionárias normalmente têm cerca de dois anos de estoques de combustÃvel, acrescentou.
Os governos estão correndo para encontrar fontes alternativas de energia para manter suas economias funcionando após a interrupção de 20 milhões de barris por dia de petróleo e outros derivados de petróleo pela guerra dos EUA e de Israel com o Irã. Cerca de um quinto do fornecimento global de gás natural liquefeito âuma fonte de energia crÃtica para a Europa e a Ãsiaâ também foi interrompido, criando o pior choque energético que o mundo viu desde a década de 1970.
A energia nuclear pode fazer pouco para ajudar imediatamente, segundo analistas, mas no longo prazo a escala da crise no Oriente Médio provavelmente empurrará mais nações a construir mais reatores nucleares.
"Mesmo que os aumentos nos preços de petróleo e gás sejam transitórios, o fechamento do estreito levanta questões sobre a segurança do abastecimento", disse Julien Dumoulin-Smith, analista da Jefferies. "As pessoas agora pensarão mais em subsidiar energia nuclear e solar, que são menos dependentes de combustÃveis importados."
Seth Grae, CEO da fornecedora de combustÃvel nuclear Lightbridge Corporation, acrescentou que a guerra no Irã poderia desencadear uma reavaliação da segurança energética semelhante a que levou paÃses como a França a expandir frotas nucleares após as duas crises do petróleo na década de 1970. "Os governos percebem que precisam não depender de ninguém para sua energia, e a nuclear oferece uma forma de fazer isso."
Schucht afirmou que a indústria nuclear já estava crescendo rapidamente em resposta à s preocupações com segurança energética ligadas à guerra da Ucrânia e à demanda por energia confiável e ininterrupta para alimentar tecnologias de IA. O apoio polÃtico dos governos dos EUA e da Europa à energia nuclear estava gerando mais confiança entre investidores e clientes, acrescentou.
A Urenco, que é uma grande produtora de urânio enriquecido âingrediente crucial do combustÃvel nuclearâ, cresceu de forma robusta nos últimos anos. A carteira de pedidos da empresa subiu 14% para 21,3 bilhões de euros (R$ 128,6 bi) em 2025 âo quarto ano consecutivo de crescimento nas vendas. As receitas aumentaram 11% para 2,09 bilhões de euros (R$ 12,6 bi) e o lucro lÃquido saltou mais de um terço para 248,5 milhões de euros (R$ 1,5 bi).
A Urenco tem operações no Reino Unido, EUA, Holanda e Alemanha, e planeja expandir sua capacidade de enriquecimento de urânio em 15% até 2030. Schucht disse que a indústria poderia expandir ainda mais o enriquecimento de urânio para atender à demanda adicional provocada por um aumento mais rápido do que o previsto na implantação de reatores nucleares após a crise do petróleo no Oriente Médio.