Resumo objetivo:
O artigo aborda a violência sexual e a misoginia entre jovens, exemplificada por casos como o estupro coletivo no Colégio Pedro II, e destaca a reação da comunidade escolar, que reivindica a ampliação do debate sobre gênero na educação. O professor Daniel Cara, da USP, argumenta que a escola deve ser um espaço central para discutir violências de gênero e raciais, rebatendo narrativas que a culpabilizam ou a consideram "profana". Ele também defende a regulamentação das plataformas digitais para combater conteúdos misóginos e a necessidade de uma educação sexual desde os anos finais do ensino fundamental.
Principais tópicos abordados:
1. A violência sexual e misoginia entre jovens e o papel da escola no combate a esses problemas.
2. A defesa da escola como espaço essencial para debates sobre gênero e violências, contra narrativas de "pânico moral".
3. A crítica à desregulamentação das redes sociais e a urgência de leis que garantam a soberania nacional sobre plataformas digitais.
4. A necessidade de educação sexual e discussões sobre gênero desde a infância, enfrentando discursos que as atacam como "ideologia de gênero".
Enquanto o Brasil se choca com casos de violência sexual e misoginia entre jovens, como o estupro coletivo em Copacabana envolvendo alunos do tradicional Colégio Pedro 2º, a comunidade da própria escola realizou um ato contra o assédio e reivindicou a ampliação do debate de gênero nas salas de aula. A contradição expõe um dilema: a escola é parte do problema ou pode ser o centro da solução?
Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP, situa o debate para além do caso específico. “O Pedro 2º está no caminho certo, mas no debate público muita gente está dizendo que a culpa é do Pedro 2º. Há pessoas que querem desconstruir a escola pública”, ressalta ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. A instituição federal tem feito um esforço grande de encarar a questão, tanto pela gestão quanto pelos alunos, que reivindicam a necessidade de discutir o tema.
“A misoginia também é uma marca dos ataques às escolas. A escola é um espaço fundamental porque congrega toda a juventude. Tem que ser um lugar de debate sobre violências de gênero, violências raciais, todas as formas de violência. O problema está disseminado por toda a sociedade brasileira, não só naquela escola pública”, destaca.
O professor denuncia a estratégia do “pânico moral” mobilizada por setores da extrema direita e também por grupos religiosos. “Se constituiu no Brasil um clima de pânico moral, que tudo se trata no ambiente escolar de uma perversão. E a escola, entre todos os ambientes do país, é um dos espaços em que existe a maior capacidade de ponderação e a maior estratégia de cuidado.”
Ele rebate a narrativa de que a escola seria “profana” e a casa “sagrada”. “Qualquer pessoa com mínima honestidade intelectual sabe que não é essa realidade”, pontua. Vale ressaltar que mais de 80% dos casos de assédio ocorrem no ambiente familiar ou com conhecidos. Frente a esse cenário, Cara ressalta que “a escola sempre foi um espaço do bom senso”.
Cara defende que a educação sexual precisa ser feita a partir dos anos finais do ensino fundamental, e o debate sobre violências de gênero deve começar ainda antes. “É imprescindível que se discuta essas questões. Muitas vezes as próprias crianças são vítimas em casa, por familiares ou amigos.”
Ele critica a tentativa de interditar esses debates sob o falso argumento da “ideologia de gênero”. “O ultra-reacionismo tenta criar uma ideia de que a escola é profana e a casa é sagrada. Mas entre todas as instituições do país, uma das mais cuidadosas em relação ao trato com crianças e adolescentes são as escolas, especialmente as públicas.”
Sobre a proliferação de conteúdos misóginos nas redes, como a trend do TikTok “Caso ela diga não”, que simula violência contra mulheres, Cara é enfático: “A única alternativa concreta é regulamentar as plataformas respeitando a soberania nacional. Isso vale para inteligência artificial, para redes sociais, para qualquer tipo de tecnologia”.
Ele lembra que as big techs estão sediadas nos Estados Unidos e frequentemente se arvoram a não cumprir leis brasileiras. “O Brasil avançou muito, mas teve uma resposta muito violenta por parte das plataformas, especialmente contra o Supremo Tribunal Federal e o Ministério da Justiça.”
Países como Canadá, União Europeia e Nova Zelândia têm avançado na regulamentação. “O Brasil é um país soberano e a soberania tecnológica tem que ser respeitada, inclusive em termos jurídicos.”
Cara comenta a iniciativa das universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp) de definir parâmetros para o uso de IA no ambiente acadêmico. “É uma iniciativa importante, porém tímida. É uma normatização operacional — o uso precisa ser declarado e não pode substituir o pensamento humano. Mas o caminho mais avançado seria uma regulamentação federal forte, que permita ao Brasil conhecer o algoritmo e intervir sobre o viés.”
Cara defende que, com exceção da China, que tem sistemas próprios, os demais países ficam reféns de algoritmos estrangeiros.
Escola Parque dos Sonhos: o risco de replicar modelos
A Escola Parque dos Sonhos, em Cubatão, no litoral paulista, ganhou o prêmio World Best School Prize, concedido por uma fundação empresarial. O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) anunciou a intenção de replicar o modelo em outras escolas do estado.
“Normalmente, a qualidade do trabalho é oriunda do trabalho pedagógico dos educadores e das educadoras. A ideia de replicar modelos é muito mais demagogia oportunista do que efetivamente fazer política educacional. O modelo dessa escola muito provavelmente não vai se adequar a realidades distintas”, alerta.
Ele cita o exemplo da Escola Campos Salles, em Heliópolis, na zona sul da capital paulista, um caso de gestão democrática que depende essencialmente da comunidade escolar. “As pessoas que vivem e constroem a Campos Salles não são replicáveis em outros lugares, porque elas vivem naquele território, têm os pés firmes naquele chão. Cada escola é um universo.”
Para Cara, o caminho é outro. “Temos excelentes profissionais, mas que são constrangidos, pressionados, explorados para implementar políticas alheias às questões pedagógicas. Se der espaço, como aconteceu na Campos Salles, com o tempo surgirão excelentes experiências. Educação não é corrida de 100 metros, é maratona”, avalia.
“A escola sempre foi um espaço do bom senso. Ela tem que ser um instrumento de transformação dessa realidade de violência. O que a gente precisa é dar condições de trabalho para os professores e respeitar a soberania das comunidades escolares”, conclui.
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