Resumo objetivo:
A CPI do Crime Organizado, criada inicialmente para investigar facções e milícias, desviou seu foco para o caso do Banco Master após a descoberta de um esquema fraudulento bilionário ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Paralelamente, a CPI Mista do INSS, que investigava desvios de recursos da previdência, também redirecionou parte de seus trabalhos para o mesmo caso, aprovando quebras de sigilo contra envolvidos. Os parlamentares destacam a necessidade de investigar as ramificações do esquema no sistema financeiro e em estruturas de poder, incluindo supostos vínculos com autoridades dos três Poderes.
Principais tópicos abordados:
1. Criação e redirecionamento das CPIs (do Crime Organizado e do INSS) para investigar o caso Banco Master.
2. Esquema fraudulento bilionário envolvendo Daniel Vorcaro e supostas conexões com agentes políticos e do Judiciário.
3. Aprovação de quebras de sigilo e convocações para investigar a rede de aliados do banqueiro, como "A Turma".
4. Envolvimento de instituições como Banco Central, Coaf e Polícia Federal na apuração do caso.
“Essa tragédia tem solução. Não é pauta eleitoreira, é urgência nacional.” Essa foi a declaração do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) após a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, proposta de sua autoria. Na época, o país se sensibilizava com a megaoperação no Rio de Janeiro (RJ), que deixou 121 mortos nos Complexos da Penha e Alemão. Dois dias depois, em 4 de novembro de 2025, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiu que era preciso instalar o colegiado para investigar as facções criminosas.
Alguns meses antes, em agosto, o Congresso Nacional instalou uma CPI Mista para investigar as irregularidades envolvendo desvio de dinheiro no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que lesou milhares de aposentados e pensionistas. Presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) e relatada pelo deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), o colegiado defendia a necessidade dos trabalhos serem conduzidos de forma isenta e apartidária.
Na segunda comissão, o foco era claro: se ater aos desvios de dinheiro público no aparelho estatal. Na primeira, nem tanto. Mesmo que abrangente, o objetivo estava posto: apurar a atuação, a expansão e o funcionamento de organizações criminosas no território brasileiro, em especial de facções e milícias.
No entanto, no meio dos trabalhos, um outro escândalo veio à tona. Em 18 de novembro, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central e revelou um esquema fraudulento que envolvia atores políticos dos três Poderes. E o elo de tudo era um só, Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira, que mantinha uma agenda de contatos que ia de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a governadores.
A partir disso, os colegiados tomaram um outro rumo e se desviaram do foco inicial. Desde que o tema ganhou novos contornos e se fortaleceu, os parlamentares voltaram a atenção ao caso Master. No dia 4 de dezembro, a CPMI do INSS aprovou a convocação e a quebra do sigilo telemático, bancário e fiscal de Vorcaro.
A partir daí, as tentativas se tornaram mais frequentes. No meio tempo, o caso no STF foi se tensionando com o suposto envolvimento no esquema do então relator na Suprema Corte, ministro Dias Toffoli. Para estancar o sangramento, o ministro André Mendonça assumiu o posto. Apesar da pressão dos parlamentares, Mendonça não cedeu e desobrigava os depoimentos aprovados.
Enquanto isso, na CPI do Crime Organizado, especialmente pela proximidade da data dos fatos, o objetivo se voltou totalmente ao Master. No mesmo dia da liquidação do banco e da prisão de Vorcaro, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, deu um depoimento no colegiado detalhando a operação e o prejuízo financeiro.
“Estamos fazendo uma operação importante, de forma conjunta com Banco Central e Coaf, para [investigar] um crime contra o sistema financeiro que leva à monta de cerca de R$ 12 bilhões”, declarou na época.
Novos capítulos
Na última quarta-feira (11), a CPI do Crime Organizado aprovou mais de 20 requerimentos com quebras de sigilos e convocações mirando um grupo intitulado “A Turma”, responsável por repassar informações de supostos desafetos de Vorcaro. A ação mirou Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, aliado do empresário que se matou após ser preso pela PF, e Fabiano Campos Zettel, cunhado do banqueiro.
Após a aprovação, o presidente do colegiado, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) defendeu que o combate ao crime também precisa investigar o “andar de cima”, sem poupar ninguém. Para ele, as informações que vieram à tona apontam para um esquema de grande complexidade e que pode ter ramificações no sistema financeiro e em diferentes estruturas de poder.
“Na CPI do Crime Organizado temos aprovado convocações, quebras de sigilo e análise de documentos para esclarecer os fatos e identificar responsabilidades. O Parlamento não pode se omitir diante de indícios tão graves. Nosso compromisso é investigar com independência, transparência e rigor técnico, seguindo o princípio de que ninguém está acima da lei”, declarou.
Ocorre que, quando uma comissão começa a investigar temas que não estavam previstos no seu requerimento original ou plano de trabalho, como o caso do Banco Master sendo inserido em CPIs com outros focos, há claramente um desvio de finalidade. É o que argumenta o mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) Lincoln Telhado.
O cientista explica que, embora seja juridicamente questionável, essa é uma prática comum no ambiente político. “A política frequentemente tenta ‘ressignificar’ e reinterpretar regras, isso é do jogo, e quem se sentir ofendido poderá recorrer ao judiciário”, pontua.
Palanque eleitoral
No caso das CPIs em questão, Telhado acredita que o interesse no Banco Master é estratégico, porque atinge o STF de forma inequívoca, envolvendo ministros, e dá munição para setores da oposição e políticos que buscam pressionar a Corte.
“Há bastante tempo que um grupo de senadores busca a abertura de impeachment de ministros, sendo esse um fator estratégico para composição de chapas ao Senado para as eleições deste ano. Um movimento feito principalmente pela oposição ao governo [direita bolsonarista], mas que ganhou coro em outros parlamentares de direita e centro-direita, que acreditam na necessidade de freio de algumas decisões do Supremo”, explica.
Historicamente, comissões desse tipo, que perdem o foco inicial, tendem a terminar em relatórios genéricos e pouca resolutividade judicial. Na avaliação de Telhado, pelo menos no caso do INSS, já há investigações em outras instâncias específicas, como a PF, e o próprio governo, pela Controladoria-Geral da União, o que possivelmente desencadearia em resultados insuficientes para a CPI.
“Essas instituições tendem a se concentrar nos seus próprios resultados, então a perda de foco não seria o motivador principal da baixa produtividade da CPI, em termos de contribuição jurídica. Como essas instituições são especializadas, a CPI dificilmente trará fatos novos que já não estejam sob o crivo dessas autoridades, tendendo a ser menos valorizada juridicamente”, argumenta.
Segundo ele, os espaços são vistos como palanque eleitoral e ferramentas de sobrevivência política. “Figuras políticas utilizam o espaço da CPI para construir uma imagem de combatentes da corrupção”, diz Telhado. A atuação dos senadores Alessandro Vieira e Carlos Viana, por exemplo, é vista pelo cientista como uma busca por visibilidade e apoio eleitoral através de temas sensíveis.
“Viana e Vieira são típicos outsiders. O primeiro, ex-apresentador de programa policial, e o outro, policial civil. Viana, apesar de bem posicionado nas pesquisas, enfrenta uma disputa acirrada e Vieira enfrenta muitas dificuldades para compor chapa no Sergipe. Focar no tema do Banco Master daria uma ótima visibilidade para ambos”, completa.