Principais pontos da notícia:
A análise aponta um empate técnico nas pesquisas para presidente entre Lula e Flávio Bolsonaro, considerado um "sinal de alerta", mas avalia que a vantagem do candidato bolsonarista é frágil. Isso porque ele ainda não detalhou suas propostas e depende de um eleitorado moderado que pode migrar para Lula quando a campanha se intensificar e os posicionamentos forem exigidos.
Principais tópicos abordados:
- Cenário presidencial: Empate técnico Lula vs. Flávio Bolsonaro, estratégia do candidato bolsonarista e a dinâmica do eleitorado moderado.
- Disputa ao Senado em São Paulo: Análise das candidaturas de Simone Tebet, Geraldo Alckmin e Marina Silva, e o perfil conservador do eleitorado paulista.
- Contexto político: Influência de fatores como o caso Banco Master, a atuação da oposição e da mídia, e o risco de candidaturas da extrema direita.
Enquanto as pesquisas eleitorais apontam um empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, o cenário político torna-se complexo com a aproximação do período eleitoral, as disputas regionais e o escândalo do Banco Master, que tem sido usado pela oposição e pela grande mídia para desgastar o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF).
No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Paulo Niccoli Ramirez, analisa os números, as estratégias dos candidatos, o papel do eleitorado moderado e a tentativa de “jogar a culpa” do caso Master no PT.
Ramirez considera que o empate entre Lula e Flávio Bolsonaro é um “sinal de alerta”, mas pondera que o candidato bolsonarista ainda não expôs suas ideias. “Flávio Bolsonaro é o candidato em silêncio, que apenas herdou o capital político do pai. Essa parece ser sua estratégia: esperar até o momento em que terá que abrir a boca e responder sobre temas como o apoio ao 8 de Janeiro, o tarifaço e a iniciativa do próprio pai.”
O professor destaca que parte das intenções de voto em Flávio vem de um eleitorado moderado, que vê Lula como “radical” — uma percepção que tende a desaparecer com o início da campanha. “Quando a campanha começar de fato, essa visão adquirida por Flávio Bolsonaro tende a evaporar.”
Outro fator relevante é o perfil do próprio candidato. “Flávio Bolsonaro não representa ao pé da letra o radicalismo bolsonarista. Entre os filhos de Bolsonaro, ele representa o centrão, tem comportamentos mais comedidos, mais dialogador. Os bolsonaristas mais radicais podem não ter a mesma confiança ortodoxa nele e vão pedir cada vez mais radicalização.”
Sobre os eleitores indecisos — cerca de 1 a 2%, com mais 10% de brancos e nulos —, Ramirez acredita que tendem a se voltar para Lula à medida que Flávio for obrigado a se posicionar. “Esse público moderado busca um candidato que não vá feder nem cheirar, alguém que busque a mediação. Está cansado de disputas políticas, fake news e ataques à democracia.”
Ele lembra que, na última eleição, Bolsonaro capturou boa parte desses votos, evitando o segundo turno. “O sinal de alerta precisa estar ligado, mas a tendência é que esse eleitorado se volte a favor do PT.”
A disputa pelo Senado em São Paulo e o perfil conservador do estado
Sobre a corrida ao Senado em São Paulo, Ramirez analisa as candidaturas de Simone Tebet, Geraldo Alckmin e Marina Silva. Tebet, que teve um terço de seus votos de 2022 no estado, lidera as pesquisas, mas o professor pondera que seu mandato como ministra do Planejamento foi “extremamente tímido”. “Faltou publicidade de suas ações. Por enquanto, o voto que ela tem é de memória do eleitorado.”
O cientista político alerta para o perfil conservador do eleitorado paulista, especialmente no interior. “São Paulo foi o último estado a aplicar em massa mão de obra escrava no século 19, mas também o primeiro a industrializar-se. Temos um cenário contraditório: alta tecnologia e visão de mundo conservadora, reacionária, a favor da violência.”
Ele não descarta que candidatos da extrema direita, como Ricardo Salles ou o secretário Derrite, possam disparar nas pesquisas. “Basta aparecer um candidato com uma arma na mão e pretendendo promover o desmatamento. Essas candidaturas não podem ser menosprezadas.”
Sobre o vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera as pesquisas para o Senado, Ramirez aponta um dilema. “Se Alckmin não tiver intenção de ser presidente em 2030, deve se candidatar a senador ou governador. Se quiser ser presidente, não faz sentido abandonar a vice. Ele reverteu radicalmente sua imagem, saindo do ostracismo. Se sair da vice, pode voltar ao ostracismo.”
O professor também alerta para os riscos de uma chapa com o MDB, partido do vice. “Não nos esqueçamos do que Temer fez com Dilma. O MDB nunca elegeu um presidente desde a redemocratização, mas já teve três (Itamar, Sarney e Temer) via vice ou indireta. É melhor tê-los como coadjuvantes do que na vice-presidência.”
O escândalo do Banco Master e o papel da mídia
Ramirez faz uma análise contundente da cobertura da grande mídia sobre o caso Banco Master, especialmente o trabalho da jornalista Malu Gaspar, da Rede Globo. “A Globo jogou o problema nas costas de Alexandre de Moraes e do próprio Lula. Mas quem está mais envolvido são figuras de centro e de direita.”
Ele cita que Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Eugênio Aragão receberam dinheiro do Banco Master, e que a própria Globo promoveu Vorcaro em programas como o de Luciano Huck. “Malu Gaspar fez um dos papéis mais grotescos do jornalismo brasileiro, jogando a bucha nas mãos do PT.”
O professor menciona a jornalista Daniela Alves Lima, que questionou a veracidade das mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes. “Não há prova de que essas mensagens ocorreram. Há uma forçação de barra para manchar a imagem do STF, exatamente porque há um acordo entre a extrema direita e a Rede Globo: prejudicando a imagem de Moraes e do PT, abriria caminho para a anistia de Bolsonaro com a eleição de Flávio.”
Ramirez compara a situação à Lava Jato. “Estão repetindo a velha história. No final, quem estava envolvido era o MDB, o PSDB. A mídia tradicional está fazendo um grande papelão, tentando jogar a culpa no PT. Mas se a CPI for aberta, pode ser que muita gente queime a língua.”
Ele lembra que o Banco Master não começou a operar em 2023. “É um processo de longa data, que sem apoios políticos, principalmente do centro e da direita, jamais teria se tornado o que foi. Foi no mandato do PT que a Polícia Federal teve liberdade para investigar seguindo os critérios da lei.”
Ramirez encerra com uma crítica à cobertura da Globo. “Estamos mais uma vez diante de uma montagem, de um factoide jornalístico vindo de uma emissora conservadora que tem interesse em manter em pauta o Banco Master. O eleitorado precisa perceber isso.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.