O maestro João Carlos Martins, aos 86 anos, inaugura a Orquestra Sinfônica Sênior Sesi-SP, formada por músicos com mais de 60 anos e com horários que respeitam os hábitos diurnos dos idosos, encerrando as apresentações até as 20h. A iniciativa visa combater o preconceito contra músicos mais velhos e oferecer uma nova trajetória profissional para artistas aposentados de orquestras renomadas. Paralelamente, Martins também desenvolveu um método de musicalização infantil que utiliza objetos cotidianos, agora implementado em milhares de escolas.
Principais tópicos abordados:
1. Criação da Orquestra Sinfônica Sênior e suas características.
2. A questão do etarismo e da reinserção profissional de músicos idosos.
3. A trajetória pessoal e a saúde do maestro João Carlos Martins.
4. O projeto educacional de musicalização infantil desenvolvido por Martins.
A música vai acabar mais cedo, na avenida Paulista, centro nervoso de São Paulo. Aos 86 anos, o maestro e pianista João Carlos Martins inaugura, no domingo (15), a Orquestra Sinfônica Sênior Sesi-SP, dedicada a músicos com mais de 60 anos. Martins diz que os idosos têm hábitos diurnos, então ele achou por bem estabelecer o horário limite de 20h para os programas do conjunto, visando acabar tudo mais cedo.
Neste domingo, o evento será comemorativo, no vão do prédio da Fiesp. A estreia oficial da temporada ocorrerá no Teatro Sesi-SP, em 8 de abril, uma quarta-feira, com a "Abertura", da ópera "A Flauta Mágica", de Mozart, e "Le Roi sâamuse" âo rei se diverte, em portuguêsâ, de Léo Delibes.
"Noto um preconceito na música sobretudo para convidar solistas mais velhos", diz Martins. "Ao mesmo tempo, esses profissionais estão sendo substituÃdos por jovens nas orquestras e, ainda que tratem o instrumento como Ãmã, ficam um pouco sem objetivo na carreira."
Não é o caso do maestro. Há dois anos, Martins afirmou que pararia de reger e deu até um concerto, no Carnegie Hall, em Nova York, para se despedir dos palcos estrangeiros. Ele, no entanto, não conseguiu parar. Lendo suplementos jornalÃsticos sobre longevidade, chegou à conclusão de que o ócio não faria bem à saúde, já debilitada. Nesse Ãnterim, recebeu um diagnóstico de câncer na próstata e iniciou o tratamento com uma cirurgia, semanas antes de sua apresentação no Carnegie Hall.
"Eu estou bem. Faço minha ginástica, estudo com as minhas luvas biônicas, faço 300 fotos com as pessoas depois de cada concerto, e acredito na trajetória da esperança. Eu falo âmeu Deus do céu, passei por 31 cirurgias e estou aÃâ", afirma o maestro, em referência a distonia focal, doença que atrofia as mãos, dificultando a prática do piano.
à nesse contexto que surge a ideia da Orquestra Sinfônica Sênior, que se une agora à Bachiana Filarmônica e à Bachiana Jovem, todas mantidas pelo Sesi-SP. A iniciativa, diz Martins, só se concretizou com o empenho do presidente da Fiesp, Paulo Skaf.
O maestro afirma que a escolha dos músicos se deu de maneira bastante criteriosa. De inÃcio, a Sênior tem 25 integrantes, advindos de alguns dos principais conjuntos do paÃs, como a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e a Orquestra Sinfônica Municipal (OSM). "Demoramos três ou quatro anos para formar o som de uma orquestra, que é o som do maestro discutindo democraticamente com os músicos", diz Martins. "Por isso, a maioria desses artistas acabou de se aposentar."
Ao longo do ano, o maestro promoverá encontros de solistas jovens com músicos experientes, permitindo uma troca musical entre as gerações. A Orquestra Sênior terá ainda uma outra particularidade. Alguns programas serão temáticos. Um deles, por exemplo, abordará a relação entre música e psicanálise. Não há restrição de repertório âdesde que as peças tenham, claro, orquestração adequada ao conjunto.
Em paralelo, o maestro desenvolveu um trabalho para a faixa etária radicalmente oposta. Em parceria com o músico e educador Eduardo Maueski, criou um método de musicalização infantil, a partir do uso criativo de objetos cotidianos, como copos e folhas de papel sulfite. O método foi apresentado, em novembro, numa noite no Teatro B32, na avenida Faria Lima, em São Paulo.
Agora, está sendo implementado pela Somos Educação, um dos principais grupos do setor, que atua em 112 mil escolas públicas e 5,4 mil privadas. Martins diz ter se inspirado nos projetos de Heitor Villa-Lobos, em especial o ensino do canto orfeônico nas escolas, na década de 1930. O canto orfeônico, que tem esse nome em homenagem a Orfeu, personagem da mitologia grega, é uma prática vocal coletiva e amadora, com origem no século 19.
"Não vou ensinar instrumento nenhum para as crianças, isso fica para os outros projetos", afirma o maestro. "Muitos alunos que fizeram o método no primeiro ano já pediram para estudar algum instrumento. Não quero impor música para criança. Quero, de uma forma brincante, fazer com que ela busque a música."