Resumo objetivo:
A acessibilidade para pessoas com deficiência visual no cinema melhorou significativamente com o uso de aplicativos como Movie Reading e M Load, que fornecem audiodescrição sincronizada via celular durante a sessão. No entanto, desafios persistem em etapas como a compra online de ingressos, a locomoção em shoppings e o atendimento inadequado nas salas. Enquanto a acessibilidade sensorial no filme em si está resolvida, as barreiras no entorno fazem com que muitas pessoas ainda prefiram aguardar os lançamentos no streaming.
Principais tópicos abordados:
1. Avanço na acessibilidade durante a exibição de filmes por meio de aplicativos de audiodescrição.
2. Persistência de barreiras em etapas como compra de ingressos, locomoção em cinemas de shopping e atendimento.
3. Contraste entre a solução tecnológica para a experiência sensorial e a falta de acessibilidade integral no passeio como um todo.
São Paulo Não foram poucas as vezes em que saà do cinema e fui direto à Wikipedia ou a algum site que não tivesse pudor em dar spoilers para descobrir qual o enredo do filme a que assisti, mas não entendi. Em razão da minha deficiência visual, muitos elementos da trama passavam despercebidos, principalmente em filmes com poucos diálogos.
Há cinco anos, audiodescrição na tela grande aparecia apenas em rarÃssimas sessões especiais ou em algum festival no qual eu corria para maratonar o máximo de tÃtulos possÃveis, dada a escassez de oportunidades.
Hoje o cenário é bem diferente. Quando sai um tÃtulo no circuito comercial, a pergunta não é "será que terá acessibilidade?" ou "em qual cinema vou encontrar audiodescrição?", mas sim "em qual aplicativo eu baixo as descrições dele?"
Assim que um filme é lançado, podemos encontrar em serviços como o Movie Reading ou o M Load uma série de conteúdos: descrições das cenas, legendas e interpretação em Libras (a lÃngua brasileira de sinais).
Na sala de cinema, conectamos um fone de ouvido no celular e ligamos o aplicativo. A ferramenta então usa o microfone do telefone para captar o som da sala e identificar qual cena do filme está sendo exibida. A partir daÃ, em poucos segundos a sincronização é feita e começamos a escutar uma narração que descreve cenários, personagens, figurinos e ações que ocorrem na tela.
Nos filmes legendados, o espectador também escuta via fone de ouvido a tradução das falas em português se sobrepondo às originais. Não é o melhor dos mundos, o que faz muitos preferirem produções nacionais ou dubladas, mas funciona.
Ou seja, em termos de acessibilidade sensorial, a sala não faz diferença. Carregamos tudo o que vamos precisar no nosso bolso.
Os verdadeiros desafios estão no entorno da ida ao cinema e começam logo na compra online. Da mesma forma que acontece em shows ou peças de teatro, pessoas cegas não conseguem adquirir seus bilhetes com autonomia, porque os serviços de compra não são acessÃveis para pessoas cegas na hora de realizar ações como selecionar o assento. Da mesma forma, precisarão de ajuda para utilizar totens de autoatendimento, que não costumam oferecer opção de navegação por sintetizador de voz.
Em relação à locomoção, a ida a shoppings âonde ficam a maior parte das salas paulistanasâ também costuma ser mais um mal necessário quando se precisa comprar algo do que um passeio para quem não enxerga. Isso porque andar por eles é muito mais difÃcil do que na rua. Dependemos da condução de seguranças, bombeiros ou agentes de atendimento dos centros comerciais para nos locomovermos, e o tempo de espera para obtermos esse apoio varia bastante dependendo do empreendimento e da existência de algum protocolo organizado.
Durante e após a sessão, a qualidade do atendimento da empresa também faz toda a diferença. Por vezes, esquecem de nos buscar quando o filme termina e acabamos pedindo ajuda para o pessoal da limpeza.
Em outras, conseguimos até combinar um esquema com o pessoal da lanchonete para trazerem mais daquela pipoca bem grande, metade salgada e metade doce assim que o filme chega à metade, afinal queremos a experiência completa e com refil.
Enquanto a acessibilidade só estiver garantida pelos aplicativos, sem que haja uma preocupação com todo o contexto do passeio, o público com deficiência visual vai continuar esperando a chegada dos tÃtulos no streaming.