Resumo objetivo:
Jorge Drexler lança o álbum "Taráca", centrado no candombe e em ritmos afro-uruguaios, como uma reação artística ao zeitgeist contemporâneo de divisão e desesperança. O trabalho, concluído após o luto pela morte de seu pai, busca ser uma celebração da vida, da resistência pelo amor e da luta contra discriminações, refletindo também sua história familiar de diversidade e exílio.
Principais tópicos abordados:
1. A concepção e os temas do álbum "Taráca" (ritmo, identidade, reconexão, luto e celebração).
2. A influência de raízes musicais uruguaias e afrolatinas, especialmente o candombe.
3. O contexto pessoal e familiar de Drexler (história de exílio, diversidade e luto).
4. A mensagem social do álbum, focada em resistência, amor e combate à discriminação.
Rito e ritmo são dois eixos centrais âmusicais, metafóricos e metafÃsicosâ de "Taracá", novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler que chega hoje à s plataformas digitais. O tÃtulo nasce da fusão de uma aférese e de uma onomatopeia: condensa a sÃncope da expressão uruguaia "estar acá", ou "estar aqui", com o som das madeiras que batem nas laterais do tambor do candombe, gênero afro-uruguaio por excelência.
"Taracá" é também uma forma de oração âpagãâ, um ato de fé âagnósticoâ e um fio de reconexão com uma humanidade dispersa em sua dependência algorÃtmica enquanto o mundo "vai para o brejo" âtradução tÃmida de "se va al carajo", verso que Drexler entoa com convicção e contundência em uma das 11 faixas do álbum.
Toco Madera" âtÃtulo que reúne o duplo sentido de tocar o tambor e invocar proteção, à maneira do nosso "bater na madeira"â abre o disco e funciona como porta de entrada para esse universo. Em "Taracá", Drexler percorre diferentes manifestações da música uruguaia âmilonga, murga, plenaâ sem jamais soltar a clave do candombe. O álbum ainda incorpora outros ritmos afrolatinos, como o samba, para afastar maus presságios e afirmar a alegria não como euforia, mas como profissão de fé.
Daà que uma das faixas mais significativas para o Brasil seja "¿Qué Será que Es?", versão em espanhol para "O que à o que Ã", de Gonzaguinha. "Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder dizer em voz alta 'viver e não ter a vergonha de ser feliz' é catártico. à a paradoxal coragem da felicidade e do amor. O ódio é o primeiro reflexo que aprendemos nas redes sociais e com polÃticos que comandam o mundo. A resistência é o amor", diz o artista.
Mas fé em quê? Na construção permanente de pontes, apesar âe também por causaâ dos tempos violentos que vivemos. Drexler dialoga com o zeitgeist contemporâneo e retorna à própria pátria para exorcizar a desesperança e a dor. "Taracá" é também um disco de luto: foi concluÃdo após a morte de seu pai, Gunther, que coincidentemente faria aniversário neste 13 de março, data em que o álbum agora abraça o mundo.
Como aconteceu essa volta musical ao Uruguai?
Foi uma decisão talvez inconsciente, mas com a necessidade de me conectar com os componentes básicos da minha identidade. O luto é um estado estranho, não é linear, não é que você está só triste e faz um disco falando de saudade. Esse disco é contraditoriamente celebratório, luminoso. Porque a vida do meu pai foi cheia de superações. Um começo terrÃvel na Alemanha nazista, ele foge aos quatro anos âminha famÃlia foi uma das últimas entre os judeus que saÃram, em 1939. E entram na BolÃvia, o único paÃs que recebia refugiados judeus europeus nesse momento. Fiz uma música sobre isso, que tive o prazer de compartilhar com Caetano Veloso.
"BolÃvia".
Sim. No Uruguai, ele conhece minha mãe, que era do Partido Comunista, meu pai era social-democrata. Meu pai judeu, minha mãe sem religião. Aprendi a conviver numa famÃlia em que meu avô judeu se vestia de Papai Noel no Natal. Meu avô não judeu ia à sinagoga visitar meu avô judeu. Duas famÃlias coexistindo amorosamente, e achei que isso era normal. Saà para o mundo e percebi que era um luxo. Essa lição que eu tive de menino é de máximo valor no mundo, onde cada vez mais aparecem figuras polÃticas que fazem da confrontação uma arma perigosÃssima. Esse é o zeitgeist do disco. Tem a ver com essa vontade de lutar contra qualquer forma de discriminação, até a etária, porque há muitas gerações juntas nesse trabalho.
O tambor é âncora de conexão para a diáspora africana.
Sem estabelecer paralelismos, que são sempre difÃceis, mas, quando você vê de dentro de um grupo discriminado a discriminação, aprende a perceber essa discriminação em todos os âmbitos. Mesmo assim, a discriminação racial é mais imediata, é diferente. A minha ponte com a cultura afro-uruguaia vem do começo dos anos 1980 com amigos de famÃlias afro-uruguaias tradicionais, com forte consciência cultural. Você vê a complexidade do candombe quando tenta tocar. Mas o que mais me marcou foi a capacidade de gerar um estado espiritual: 'estar acá', aqui e agora, baseado em uma sonoridade percussiva. O transe que o candombe trouxe para a sociedade uruguaia mudou toda a percepção metafÃsica que ela tem. Você entra em contato com algo muito poderoso. 'O melhor lugar do mundo é aqui e agora', essa coisa do Gil que adoro, essa visão, achei isso no candombe.
Como surgiu a versão de "O que à o que é"?
A música brasileira estende o marco conceitual da canção e lhe dá a oportunidade de entrar em territórios do pensamento, da historiografia. Essa canção de Gonzaguinha é uma viagem iniciática, também em sua estrutura. à a única, de toda a minha vida, que ainda tenho que tocar com partitura, porque ela vai circulando, sempre de forma mais fechada e diferente. à a complexidade da vida, você roda, fica tonto, ela te leva para um lado, para outro, você acha que volta, mas de repente, não. Mas a vida deve ser melhor e será. Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder dizer em voz alta 'viver e não ter a vergonha de ser feliz' é catártico. à a paradoxal coragem da felicidade e do amor. O ódio é o primeiro reflexo que aprendemos nas redes sociais e com polÃticos que comandam o mundo. A resistência é o amor.
Em uma das canções, você celebra os clarividentes. Em que você acredita?
Na ponte. Qualquer ferramenta que sincronize as pessoas entre duas margens diferentes de um mesmo rio. A música é uma experiência de sincronização que abre um canal de comunicação. Esse não é um comentário leviano, é uma constatação neurocientÃfica cada vez mais evidente. Dançar com alguém sincroniza as ondas cerebrais, os ritmos corporais, emocionais. à a grande batalha hoje. Foi a Marisa Monte que me falou⦠A gente gera um estado de consciência em um show, que o público entra de um jeito e sai de outro, com uma conexão que não é conceitual. Sua opinião não é tão importante como seu ato de presença. Meu trabalho não é opinar, não sou especialista em nada, mas talvez sim em construir músicas para essas conexões.
Sempre é possÃvel construir pontes?
Um exemplo mais que central na minha existência de pessoa judia e não judia é o conflito entre Israel e Palestina. Seria ingênuo pensar que agora as pontes podem ser cruzadas, mas quando falo de clarividentes, estou pensando especificamente em grupos de pessoas que perderam familiares dos dois lados, como Parents Circle ou Women Wage Peace. Pessoas unidas pelo luto, que faz entender que o outro é mais eu do que aqueles que acham que eu sou do mesmo bando. Essas pessoas são clarividentes, moram no futuro. Sabem que a ponte que estão construindo não vai ser atravessada agora, mas talvez pelos bisnetos deles. Agora é impossÃvel, mas eles sabem que é uma questão de tempo.