Resumo objetivo:
Após o anúncio da recuperação extrajudicial da Raízen, investidores buscam vender seus CRAs e debêntures no mercado secundário, oferecendo os títulos com descontos próximos a 60% em relação ao valor de face. Essa desvalorização ocorre devido ao temor de inadimplência e ao desequilíbrio entre oferta e demanda, mas cria oportunidades de alta rentabilidade para quem compra os papéis com desconto, caso a empresa honre os pagamentos futuros.
Principais tópicos abordados:
1. Desvalorização acentuada dos títulos de dívida (CRAs e debêntures) da Raízen no mercado secundário.
2. Impacto da recuperação extrajudicial da empresa na percepção de risco e no comportamento dos investidores.
3. Efeitos colaterais em fundos de investimento que detêm esses ativos e o risco de contágio no mercado.
Investidores de CRAs (Certificados de RecebÃveis do Agronegócio) e debêntures da RaÃzen tentam se desfazer dos papéis após o anúncio de recuperação extrajudicial da companhia, na noite de terça-feira (10). Após a divulgação, era possÃvel encontrar tÃtulos à venda no mercado secundário (entre investidores) com descontos de cerca de 60%.
Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), um CRA da RaÃzen com vencimento em julho de 2029 a 100% do CDI estava a R$ 421,47 nesta quarta-feira (11), ante R$ 1.021,16 de seu valor de face, ou seja, seu valor nominal de emissão. Isso equivale a um desconto de 59%.
Na prática, considerando o valor a ser pago pela companhia no vencimento, o tÃtulo a R$ 421,47 oferece uma rentabilidade de 490% do CDI.
Um CRA com mesmo vencimento, mas com rentabilidade a IPCA + 3,6% estava a R$ 600,40, ante R$ 1.466,40 de valor de face, ou seja, oferecia o mesmo desconto de 59%.
As debêntures (tÃtulos de dÃvida) também eram ofertadas com grandes descontos. Um papel com vencimento em novembro de 2029, a IPCA + 3,54% estava a R$ 603,65, em comparação ao valor nominal de R$ 1.440,73, uma dedução de 58,10%.
Alguns investidores tentaram aproveitar a desvalorização dos papéis, se oferecendo para comprá-los a descontos ainda maiores. Era possÃvel encontrar em corretoras ofertas de compra de um CRA com vencimento em 2029 a R$ 255,81, ou seja, a 760% do CDI.
A diferença acontece pela relação desbalanceada entre oferta e demanda. Os tÃtulos dos quais os investidores querem se desfazer, mas sem encontrar compradores, têm um desconto em relação ao preço de emissão inicial, feito pela empresa no passado.
Isso significa que, para o investidor que adquire o tÃtulo por um preço mais baixo no mercado secundário, o retorno se torna maior. A rentabilidade prometida pela RaÃzen permanece a mesma, então, se a companhia pagar o prometido, o ganho do investidor que comprou o tÃtulo com desconto cresce.
Na última sexta (6), o desconto em alguns tÃtulos era ainda maior. Um CRA com vencimento em 2029 estava a R$ 393,69, um deságio de 61,5%.
Isso acontece no caso da RaÃzen porque investidores temiam uma recuperação judicial, processo que tende a ser mais lento. Além disso, há tÃtulos com mais garantias, como alienação fiduciária, o que os deixa mais atrativos em relação aos demais.
"O anúncio da recuperação extrajudicial é mais interessante que a alternativa e pode até fazer o preço do ativo se recuperar", diz Michael Viriato, sócio da Casa do Investidor e colunista da Folha.
O desconto dos tÃtulos vem desde o inÃcio do ano, com rumores de que a empresa poderia entrar em recuperação. Há um mês, o deságio dos CRAs era de 35% e passou a cerca de 50%.
A fuga dos tÃtulos de dÃvida da companhia vem do receio de não receber o pagamento devido, já que a empresa passa por dificuldade financeira.
"O cenário costuma envolver alongamento de prazos, possÃvel redução de juros e, em alguns casos, conversão em participação acionária", diz VirgÃlio Lage, especialista da Valor Investimentos.
O aumento da oferta dos papéis no mercado secundário, e a consequente desvalorização dos papéis, acaba afetando também fundos de investimento que investem nesses CRAs, gerando um impacto negativo aos cotistas.
"Os fundos que carregam esses ativos tendem a apresentar desempenho abaixo da média do mercado ou até abaixo de seus benchmarks, em comparação com pares que não possuem esses papéis problemáticos", afirma Guilherme Almeida, diretor de renda fixa da Suno Research.
"Se houver muitos resgates simultâneos por parte dos cotistas, os gestores podem ser obrigados a vender outros ativos da carteira âinclusive papéis de boa qualidadeâ a preços mais baixos para honrar esses resgates", completa.
Dessa forma, o impacto da reestruturação extrajudicial da RaÃzen no mercado financeiro brasileiro pode ser significativo. Quando a Americanas entrou em recuperação judicial, a desvalorização de suas debêntures acabou derrubando o mercado de crédito privado como um todo, já que investidores pediam um retorno maior por esses tÃtulos, dado o aumento de percepção de risco.
"Um segundo impacto possÃvel é o movimento conhecido como 'fuga para a qualidade', como já ocorreu em outros episódios, como no caso do Banco Master. Investidores que estejam posicionados em ativos de maior risco tendem a resgatar recursos desses papéis e migrar para crédito de melhor qualidade. Em alguns casos, há também migração para tÃtulos públicos", afirma Almeida.
Caso esse efeito venha a se concretizar, a emissão de crédito privado tende a encarecer no paÃs, apesar da tendência de queda da Selic. Para o investidor, o retorno aumentaria.
"O investidor pessoa fÃsica leva susto e associa esses episódios ao instrumento em si. Só que o problema não é o CRA, ou as debêntures, e sim o risco de crédito da empresa. Por isso, é importante que fique claro quais os riscos e garantias de cada emissão na hora da compra", diz Felipe Rogado, diretor da securitizadora, gestora e administradora de fundos Vert Capital.
"Nesse contexto de maior aversão a risco, companhias que já vinham discutindo a necessidade de reestruturação ou que operavam com nÃveis mais elevados de alavancagem e margens mais comprimidas acabam sendo pressionadas, justamente porque o sentimento de risco fica mais latente", diz Rafael Sueishi, diretor de renda fixa da Manchester Investimentos.
Outro ponto que gera preocupação no mercado é o fato de os CRAs da RaÃzen terem sido bem avaliados pelas agências de classificação de risco, com notas máximas de rating até o inÃcio deste ano.
Segundo Pedro Galdi, analista da plataforma de investimentos AGF, se outras empresas também entrarem com pedido de recuperação, como fizeram RaÃzen e GPA (Grupo Pão de Açúcar), mais caras devem ficar as emissões de dÃvida pela seletividade do mercado.
"Isto implica a obrigação dos investidores em terem maior seletividade e exigência de maiores taxas de retorno em relação ao risco, com o foco na estrutura de capital das empresas emissoras de tÃtulos de dÃvida. Este movimento pode inibir o volume de novas emissões de dÃvida em operações tradicionais e reduzir liquidez neste mercado", diz Galdi.
Por enquanto, segundo especialistas, não houve impacto no mercado secundário de crédito privado de outros emissores.