O Brasil registrou um número recorde de feminicídios em 2025, com 1.568 casos, sendo a maioria cometida por parceiros ou ex-parceiros. A violência, que frequentemente começa de forma sutil com humilhações, controle e manipulação psicológica, pode evoluir gradualmente para o assassinato. Especialistas e órgãos públicos destacam a importância de reconhecer esses sinais iniciais, que já configuram crime, e buscam orientar as mulheres sobre como identificar relacionamentos abusivos e pedir ajuda.
O Brasil vive um recorde de registros casos de feminicÃdio. Em 2025, foram 1.568 mulheres mortas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Oito em cada dez foram cometidos pelo ex ou atual parceiro. O assassinato é o capÃtulo final de uma violência que, em muitos casos, começa dentro do relacionamento.
Falas que humilham, chantagens emocionais, ciúmes excessivo e mentiras estão entre os sinais de alerta para que a mulher busque proteção. Eles são divulgados por órgãos do sistema de Justiça brasileiro como prevenção ao feminicÃdio.
Nas cartilhas distribuÃdas, é usado um "violenxtômetro", desenvolvido em 2009 pelo Instituto Politécnico Nacional do México, para mostrar que a violência começa sutilmente e pode culminar em feminicÃdio. A Folha se baseou nele para fazer um teste que ajude as mulheres a reconhecerem a violência no relacionamento.
Muitas mulheres vivem um relacionamento abusivo ou violência doméstica e não sabem, dizem as especialistas.
"Recebemos mulheres que, por anos, não identificaram a situação como violência. Isso acontece porque a violência doméstica geralmente não começa de forma explÃcita, ela se constrói gradualmente", diz Anabel Pessôa, co-fundadora do Instituto Maria da Penha e coordenadora jurÃdica do projeto As Penhas.
Segundo Adriana Liporoni, secretária de PolÃticas da Mulher do estado de São Paulo, esse tipo de relação é marcada por controle e dominação, disfarçados de cuidado e amor.
"Ele querendo saber o tempo todo onde está, o que está fazendo e com quem. Com o tempo, evolui para isolamento, crÃticas constantes e tentativas de controlar as decisões de vida da mulher. Quando uma relação começa a limitar a liberdade, a autonomia ou a autoestima, é um alerta importante", diz Pessôa.
O homem isola a mulher da famÃlia, de amigos e do convÃvio social para ela não ter com quem contar, afirma Liporoni. O agressor também pode praticar o "gaslighting", que é o ato de manipular e distorcer fatos para fazer com que a vÃtima comece a questionar sua própria realidade.
"Quando a mulher sabe que [o homem] passou do limite? Quando tudo o que ela vive passa a ser um sofrimento. Esse é o momento que deve ter alerta e procurar ajuda.", diz Liporoni.
Sinais de alerta já são violência
Esses comportamentos, chamados de sinais de alerta, já são na prática uma violência, diz Raquel Peralva, defensora pública do estado de São Paulo, que atua na Casa da Mulher Brasileira. A violência psicológica é crime pela Lei Maria da Penha, o que significa que a mulher não precisa esperar uma agressão fÃsica para denunciar ou pedir uma medida protetiva.
Além da violência fÃsica, sexual e psicológica, a lei elenca ainda a patrimonial (como quebrar coisas dentro de casas e destruir objetos de trabalho) e a moral (com objetivo de difamar a honra ou a reputação da mulher).
Muitas dessas atitudes, observa Liporoni, podem vir com momentos de gentileza, com promessas de mudança, sobretudo após agressões fÃsicas âuma forma de evitar com que a vÃtima se separe. E podem continuar, inclusive, após o término, com atitudes como perseguição fÃsica e nas redes sociais.
Medo, vergonha de pedir ajuda, falta de apoio de pessoas próximas e dependência emocional e financeira são alguns motivos que dificultam que a vÃtima saia dessa relação.
O primeiro passo para sair de um relacionamento abusivo, dizem as especialistas, é reconhecer que está numa relação tóxica. A secretária recomenda conversar com uma pessoa próxima sobre o que está passando.
Como pedir ajuda
Em São Paulo, qualquer mulher nessa situação pode procurar a Casa da Mulher Brasileira, no Cambuci, que funciona 24 horas e reúne delegacia, defensoria, Ministério Público e atendimento psicossocial em um só lugar.
Também é possÃvel buscar os CRMs (Centros de Referência da Mulher) espalhados pela cidade, com equipes de escuta, advogados e encaminhamento jurÃdico.
"Nem sempre a saÃda é uma medida protetiva: à s vezes, o primeiro passo é o apoio psicossocial para ajudar a mulher a romper com a situação", diz Peralva.
Denunciar é um ato de coragem, diz Liporoni, mas é fundamental, sobretudo ao perceber os primeiros sinais de alerta. Em muitos dos casos de feminicÃdio não foram feitas denúncias, ela afirma.
"Essa é a primeira porta a ser aberta, e que dá acesso a uma rede de proteção. à importante que ela saiba que não vai fazer a denúncia e acabou, não é um papel, ela vai passar por uma orientação", diz.
Quando é feita a denúncia em uma delegacia, a vÃtima é notificada para comparecer a um local e prestar depoimento. Dependendo do caso, afirma Liporoni, ela pode ser encaminhada a um abrigo com os filhos.
A denúncia também pode ser feita por outras pessoas, inclusive de forma anônima, que observam uma amiga, vizinha ou parente sendo vÃtima de violência contra a mulher. "Em agressão de marido e mulher, deve se posicionar, sim. A violência é um problema de todos", diz Liporoni.
Onde buscar ajuda:
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180 â Central de Atendimento à Mulher: denúncias, orientações e encaminhamentos
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190 â PolÃcia Militar, para emergências
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App SP Mulher Segura â permite abrir boletim de ocorrência remotamente e acionar viatura em situações de risco
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Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) â 142 unidades no estado de São Paulo para registro de ocorrências e medidas protetivas
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App As Penhas â desenvolvido pelo Instituto Maria da Penha, oferece informações sobre tipos de violência, direitos e serviços de atendimento