Resumo objetivo:
O dólar teve uma leve queda após disparar no dia anterior, em um cenário marcado pela aversão ao risco dos investidores. Os principais fatores de pressão são a guerra no Oriente Médio, que eleva o preço do petróleo e ameaça a oferta global, e o anúncio de uma investigação dos EUA sobre trabalho forçado que pode atingir o Brasil.
Principais tópicos abordados:
1. Mercado financeiro e cambial: Variação do dólar e da Bolsa, influenciadas pela aversão ao risco.
2. Crise geopolítica e commodity: Impacto da guerra no Oriente Médio no preço e no fornecimento global de petróleo (com interrupções no Estreito de Hormuz).
3. Medidas e reações: Liberação de reservas estratégias de petróleo pela AIE e declarações de autoridades.
4. Risco inflacionário e monetário: Pressão sobre os preços globais e repricing das expectativas de política monetária do Federal Reserve.
5. Relações comerciais: Investigação dos EUA sobre trabalho forçado que pode resultar em novas tarifas a países como o Brasil.
O dólar abriu em leve queda nesta sexta-feira (13), após ter uma forte disparada no dia anterior, quando saltou 1,67%. Os investidores acompanham os desdobramentos da guerra no Oriente Médio e seu impacto no preço do petróleo.
Além disso, o mercado avalia o anúncio dos EUA de investigar o Brasil e mais 60 paÃses por trabalho forçado, o que levar à imposição de novas tarifas de importação.
Ãs 9h13, a moeda norte-americana caÃa 0,24%, cotada a R$ 5,2336. Na quinta, o dólar fechou em forte alta de 1,67%, a R$ 5,245, e a Bolsa tombou 2,54%, a 179.284 pontos, em mais uma sessão dominada por preocupações em relação à guerra no Oriente Médio.
Uma nova onda de ataques iranianos contra instalações de petróleo e de transporte na região aumentou temores de um conflito prolongado e de contÃnuas interrupções no fluxo da commodity pelo Estreito de Hormuz. Os preços do barril do Brent voltaram a superar US$ 100 nesta madrugada.
As operações foram tomadas por uma forte aversão ao risco, em reflexo de temores de disrupção nos mercados e de, em última análise, um repique inflacionário nas maiores economias do mundo, conforme a alta do petróleo pressiona os preços de combustÃveis e energia.
Para a AIE (Agência Internacional de Energia), a interrupção no fornecimento já pode ser a maior da história. Em relatório mensal, a agência afirmou que a oferta global deve cair em 8 milhões de barris por dia em março como consequência do estrangulamento do Estreito de Hormuz, via por onde passam 20% de todo o petróleo e gás do mundo.
PaÃses do Golfo do Oriente Médio, incluindo Iraque, Qatar, Kuwait, Emirados Ãrabes Unidos e Arábia Saudita, reduziram a produção da commodity em pelo menos 10 milhões de barris por dia. Segundo a AIE, o volume equivale a 10% de toda a demanda mundial.
Sem uma rápida retomada dos fluxos de transporte, essas perdas devem aumentar. "A produção de upstream paralisada levará semanas e, em alguns casos, meses para retornar aos nÃveis anteriores à crise, dependendo do grau de complexidade do campo e do tempo para que os trabalhadores, equipamentos e recursos retornem à região", disse a agência.
Na quarta, a AIE aprovou a liberação de 400 milhões de barris de suas reservas, o maior movimento desse tipo na história da organização que reúne 32 paÃses, incluindo os Estados Unidos. O secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, prometeu que 172 milhões de barris serão disponibilizados "a partir da próxima semana".
Mas a medida deve demorar quase um mês para ser executada, de acordo com o presidente francês, Emmanuel Macron, e é vista por especialistas como um paliativo.
"Na linguagem das mesas de operações, a liberação da AIE é o equivalente a apontar uma mangueira de jardim para um incêndio em uma refinaria", comentou Stephen Innes, da SPI Asset Management.
Como resultado da escalada de temores de interrupções no fornecimento da commodity, o barril do Brent avançava mais de 8%, cotado a US$ 99. O pico foi atingido à s 23h30 de quarta (horário de BrasÃlia), a US$ 101,53.
"Se preparem para o petróleo a US$ 200 o barril, porque o preço depende da segurança regional que vocês desestabilizaram", disse o porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaqari.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a dizer que a alta nos preços do petróleo significa grandes lucros para o paÃs, mas que sua prioridade é impedir que o Irã obtenha armas nucleares.
"Em paralelo, a disparada do petróleo também tem provocado uma reprecificação das expectativas para a polÃtica monetária nos Estados Unidos, com o mercado adiando de julho para setembro o inÃcio do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve, ao mesmo tempo em que os rendimentos dos Treasuries voltam a subir, dando mais força ao dólar no exterior", diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
No Brasil, em resposta à alta do petróleo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma medida provisória que zera o PIS e o Cofins do óleo diesel, estabelece o pagamento de subvenção a produtores e importadores e institui um imposto de exportação de petróleo.
Com as medidas, o governo estima redução de R$ 0,64 no litro do diesel vendido na bomba. Postos de combustÃvel deverão anunciar a redução do imposto, conforme decreto que ainda será editado.
Ainda, o IPCA (Ãndice de Preços ao Consumidor Amplo) de fevereiro alimentou preocupações sobre o ciclo da taxa Selic a partir deste mês de março.
O Ãndice subiu 0,7% em fevereiro, um aumento mais forte do que o registrado em janeiro, quando a variação foi de 0,33%. A expectativa era de alta de 0,64%, conforme a agência Bloomberg. No acumulado de 12 meses, o Ãndice subiu 3,81%, contra 3,77% projetados.
O IPCA dá apoio à curva de juros futuros, com agentes vendo chances maiores de o Banco Central cortar a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual na reunião da próxima semana âe não em 0,50 ponto, como vinha sendo precificado antes da guerra. Os juros estão em 15% ao ano desde junho de 2025.
"O dado de hoje foi o menor para fevereiro desde 2020, portanto, há indÃcios de que a piora observada nas últimas leituras são mais devidas à sazonalidade de alta do que a uma possÃvel reversão do processo de desinflação", diz André Valério, economista sênior do Inter.
Ele ressalta que, para os próximos meses, porém, os impactos potenciais da guerra no Irã são causa de preocupação, uma vez que a inflação do paÃs poderá ser afetada pela alta dos preços do petróleo e de fertilizantes.
"Em meio a maior incerteza, não seria surpresa o Copom optar por uma abordagem mais cautelosa na reunião de semana que vem. Mas ainda esperamos um corte inicial de 0,5 ponto, dado o tamanho do aperto monetário e o bom comportamento do câmbio em meio a esse episódio."