Resumo objetivo:
Diego Zeidan, presidente estadual do PT no Rio de Janeiro, defende a diversificação da economia de Maricá para reduzir a dependência dos royalties do petróleo, preparando a cidade para um período pós-petróleo. Ele destaca projetos municipais inspiradores, como a Tarifa Zero no transporte, programas de transferência de renda e a moeda social Mumbuca, que servem de modelo para políticas públicas em nível estadual e nacional. Além disso, cita investimentos em infraestrutura, saúde, educação e saneamento básico como prioridades para o desenvolvimento local.
Principais tópicos abordados:
1. Transição econômica pós-petróleo em Maricá.
2. Políticas públicas exemplares (Tarifa Zero, moeda Mumbuca, transferência de renda).
3. Investimentos em infraestrutura (saneamento, saúde, educação, turismo).
4. Atuação política de Zeidan e a projeção das experiências de Maricá para outros âmbitos.
Aos 27 anos, o presidente estadual do Partido dos Trabalhadores (PT), Diego Zeidan, fala sobre a necessidade de diversificar a economia e preparar terreno para um período pós-petróleo. Em 2026, o orçamento previsto da cidade é de R$ 7,36 bilhões, com boa parte dos recursos provenientes de royalties.
Filho do prefeito do município, Washington Quaquá, Zeidan já ocupou o cargo de secretário municipal de Economia Solidária, em que foi responsável pela administração do Cartão Mumbuca. Na sequência, foi eleito como vice-prefeito na gestão de Fabiano Horta (PT), onde permaneceu no cargo até março de 2023, quando assumiu a então recém-criada Secretaria de Economia Solidária e Desenvolvimento na prefeitura do Rio de Janeiro.
Em dezembro de 2024 foi empossado como secretário de Habitação da gestão de Eduardo Paes e deixou o cargo em agosto de 2025 para assumir a presidência estadual do partido. Atualmente, ele divide esse papel com o cargo não remunerado de coordenador de ações governamentais da prefeitura de Maricá.
Nesta entrevista, ele fala dos desafios no âmbito municipal e de experiências inspiradoras da cidade de Maricá em ano de campanha eleitoral. O município é um laboratório de políticas públicas bem-sucedidas que Zeidan, como presidente estadual do PT, pretende levar para os âmbitos estadual e nacional. O modelo de Tarifa Zero no transporte, foi replicado em outros municípios fluminenses e integra as metas do governo federal para a próxima campanha. Além disso, programas de transferência de renda e economia solidária, como a moeda social Mumbuca e o Mumbuca Futuro são apresentados como exemplos de como “colocar o povo no orçamento” pode transformar a realidade social.
Brasil de Fato – Essa entrevista acontece às vésperas da Feira Imobiliária de Cannes. Qual o objetivo da ida de Maricá para esta feira?
Diego Zeidan – A gente tem um grande desafio em Maricá, que é construir a economia do pós-petróleo. Maricá hoje é uma cidade muito dependente de royalties. E os nossos esforços são para que a gente possa atrair indústrias, atrair outras cadeias econômicas para a cidade que não dependam da economia do petróleo.
Para esta feira, estamos levando um pouco dos investimentos em infraestrutura que a gente tem feito. Entre eles, o potencial construtivo da orla de Itaipuaçu, os seis hotéis que a gente vai construir, um na orla da Barra e os outros em Itaipuaçu. Além disso, temos dois teleféricos turísticos em projeto, um em Inoã e outro também em Itaipuaçu.
Como coordenador de ações governamentais de Maricá, quais projetos você tem dado mais atenção?
Estou acompanhando principalmente obras e reformas. A gente está reformando agora todos os postos de saúde, que estavam numa situação crítica. E aí a gente quer construir novos com uma estrutura robusta de médicos, de profissionais especializados, com enfermeiros, com reforço na Saúde da Família para atingir 100% de cobertura da Estratégia da Saúde da Família.
Há também escolas novas e as que estão sendo reformadas também. A gente está ampliando muito a rede de ensino em Maricá, porque Maricá está crescendo e a rede precisa acompanhar. Inclusive vamos construir seis Centros de Educação Pública Transformadora (CEPTs) até o final deste mandato [que se encerra em 2028].
E as atuais escolas a gente quer que elas virem creches para também atender a demanda, que o município hoje não dá conta.
O esgoto é outra questão crítica para Maricá, porque a gente ficou anos na mão da Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro], que não investia na cidade. Desde que a Cedae foi vendida, não conseguimos assumir a rede de água, que está com a Águas do Rio, mas assumimos a rede de esgoto. Em 2026 teremos mais de R$ 1,5 bilhão de investimento, para sair de 10% de rede de esgoto na cidade, que a gente pegou no início deste mandato, para 60% no final.
Então são algumas coisas que a gente está fazendo, que são necessárias para a cidade. Mas estamos preparando, como eu falei, a cidade para a economia do pós-petróleo. Então a gente também está investindo em empreendimentos turísticos. A gente acredita que não adianta só esperar o investimento privado, assim como o shopping também está saindo agora para Maricá, com o investimento da prefeitura, senão ele não ia sair. E com isso, investir e trazer a iniciativa privada para que gerencie esses projetos e gere receita junto com o município para a cidade.
Maricá foi a primeira cidade com mais de 100 mil habitantes a implantar a Tarifa Zero, uma pauta que tem ganhado escala para a campanha eleitoral deste ano. Vocês têm acompanhado a discussão nesse âmbito?
Maricá foi pioneira na implementação da Tarifa Zero. Então, acho que o exemplo já é natural. Aqui no Rio, a gente já tem vários municípios que também estão seguindo os passos de Maricá como Japeri, Itaboraí e Magé. Belford Roxo e Paracambi estão implementando. Então, Maricá já é exemplo para o Estado.
A influência de Maricá a nível nacional veio, quando [Washington] Quaquá era deputado federal e lançou, junto com o [deputado federal] Jilmar Tatto, a Frente Parlamentar da Tarifa Zero, junto a outros deputados. Então, hoje o Tatto está à frente dessa discussão em Brasília e o próprio Lula já declarou que quer colocar como pauta dessa próxima campanha e como meta do próximo governo a implementação da Tarifa Zero a nível nacional. Então, acho que é Maricá dando exemplo para o Brasil e para o mundo.
Outra experiência inovadora da cidade é a moeda social, o Mumbuca. Como nasce essa proposta?
A moeda social começou, diga-se de passagem, antes de Maricá ter royalties, antes de Maricá ter recurso. Então, começou a partir de uma vontade política de colocar o povo no orçamento. A gente construiu um programa municipal de transferência de renda, igual ao Bolsa Família. Criou uma moeda própria para poder pagar a transferência de renda só aqui no município.
Com isso, a gente criou um banco comunitário, que é um banco também local, que o foco desse banco não é atender o público tradicional dos bancos, é atender a população desbancarizada. Com isso, a gente cria produtos de microcrédito, de apoio ao empreendedorismo, de oficinas de educação financeira para a população de baixa renda, para que ela possa começar a empreender e montar o seu negócio. E o banco hoje é uma grande potência.
Além do banco Mumbuca, nós temos também o passaporte universitário, que eu acho que também é uma política extraordinária. A gente paga bolsas para mais de oito mil alunos se formarem no nível superior em cursos que não existem em Maricá.
É algo próximo ao Pé de Meia Licenciaturas lançado pelo governo federal em 2025?
Não. Inclusive, o programa que inspirou o Pé de Meia [do governo federal, voltado para o ensino médio e superior] foi o Mumbuca Futuro, criado em 2022 para incentivar a permanência na escola de alunos do Ensino Fundamental e Médio. Só que a nossa diferença para o Pé-de-meia é que além do aluno receber a bolsa, ter essa exigência de presença e de nota – 70% de aproveitamento, ele também tem aula de empreendedorismo, de cooperativismo e de economia solidária.
No caso do Passaporte Universitário, a gente paga mensalidade da faculdade. E aí, para além da mensalidade na faculdade, os estudantes que estudam fora de Maricá recebem também uma complementação de renda para que eles possam se deslocar e voltar. Se o curso for integral, eles recebem um salário mínimo, para se dedicar inteiramente ao estudo. E se o curso não for integral, mas dependendo da distância, também tem um valor que regula aquela distância. Quem estuda em Petrópolis recebe um valor, quem estuda em Vassouras recebe outro. São as duas faculdades conveniadas.
Saindo de Maricá, que tem cerca de 200 mil habitantes, você atuou como secretário de Habitação do Rio de Janeiro por um ano entre 2024 e 2025. Qual a diferença entre ser gestor público em Maricá e no Rio?
O Rio de Janeiro é um governo em outra escala. No Rio de Janeiro são seis milhões de pessoas. Então é um outro nível de profissionalização da máquina pública que abriu muito meus olhos, inclusive.
E a gente conseguiu realizar muita coisa. Consegui reiniciar as obras do Minha Casa, Minha Vida, que estavam há mais de seis anos paradas, desde o golpe contra a Dilma, que não tinha nenhum Minha Casa Minha Vida novo no Rio de Janeiro. Nesse período, foram construídas mais de 600 unidades habitacionais. Além disso, submetemos ao governo federal, o projeto Reviver Centro, em que casarões abandonados são reformados para transformar em habitação popular. Há uma reclamação que muita gente faz é que o Porto Maravilha veio só para as classes mais altas, o que não é verdade. Pela Prefeitura do Rio, no governo Eduardo Paes, a gente estava fazendo também projetos de habitação popular na área do Porto.
Além disso, ampliamos muito a atuação do Morar Carioca, com obras de infraestrutura, com construção de áreas de lazer nas comunidades. Uma proposta para garantir reformas habitacionais, que já está sendo implementado no Maricá.
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Como presidente estadual do PT, quais são as principais ações e preocupações neste ano de 2026?
Esse ano, por ser um ano eleitoral, o partido fica muito voltado para as eleições. Então, a nossa prioridade número um no Rio é a eleição do presidente Lula. A gente não quer cometer o erro que foi cometido em 2022 de restringir a campanha do Lula a um campo minoritário da política.
Então, a gente tem procurado amplas alianças dentro do Estado do Rio. Manter a aliança com o Waguinho de Belford Roxo, a aliança com o Eduardo Paes já é a nossa aliança prioritária hoje. A gente vê o Eduardo Paes como o principal palanque para ampliar a votação do Lula no governo do Estado.
Então, a gente está com o Eduardo Paes para o governo do Estado. Estamos avaliando também se Benedita da Silva é a melhor opção para o Senado. A preocupação com o Senado é não deixar que o Rio permaneça com duas vagas na extrema direita, que é uma questão vital também para a governabilidade do presidente Lula. Mas nossa prioridade número um, número dois e número três é a eleição do presidente Lula. Depois vem a bancada e depois vem o Senado.
E já começamos a discutir internamente no grupo de trabalho eleitoral do partido as nominatas. A gente está com uma nominata boa, que vai ampliar a votação em relação à última. Temos candidatos que não vieram na última e que estão vindo nessa.
Além do Lindbergh, que já é deputado federal, do Reimont, do Dimas, a gente tem a candidatura do Marcelo Freixo. A Anielle Franco que não foi candidata, agora será. Assim como Tainá de Paula e Rubens Bomtempo, de Petrópolis, que se filiou ao PT. Então, a nominata cresceu bastante. Está muito forte para esta eleição.