Resumo objetivo:
A Frente Negra Revolucionária atuou na UFMG durante as bancas de heteroidentificação para cotas, enfrentando tentativas de impedimento por parte da segurança da universidade, que alegou falta de autorização. Apesar disso, o grupo distribuiu panfletos, vendeu jornais e livros, e debateu com calouros sobre a necessidade de organizar a juventude negra, vinculando a luta racial à luta de classes.
Principais tópicos abordados:
1. A ação e a repressão institucional contra o grupo na UFMG.
2. A defesa das cotas raciais como conquista popular e os ataques recentes a essa política.
3. A crítica ao acesso limitado ao ensino superior sob a lógica capitalista.
4. A importância da organização do movimento negro no ambiente universitário para além da inclusão, com perspectiva socialista e de poder popular.
Na UFMG, a Frente Negra Revolucionária enfrenta a repressão da reitoria para organizar a juventude negra e lutar pelo socialismo e poder popular. Durante as bancas de heteroidentificação, militantes panfletaram e venderam o jornal A Verdade, reafirmando que a luta racial é luta de classes.
Paulo Vinícius – Belo Horizonte (MG)
Nos dias 10, 11 e 12 de fevereiro, a Frente Negra Revolucionária esteve presente no CAD 3 (Centro de Atividades Didáticas 3) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), local onde ocorreu a banca de heteroidentificação para ingressantes pretos e pardos na universidade via Sisu.
Os seguranças da universidade foram até o local em que estavam nossos militantes e tentaram impedir que apresentassem o jornal A Verdade e os livros das Edições Manoel Lisboa, dizendo que precisavam “pedir permissão para a administração” para montar a nossa banquinha naquele espaço, mesmo sendo um local público, abrindo, inclusive, uma ocorrência contra um de nossos militantes, o que reforça a política de perseguição aos estudantes organizados e aos movimentos sociais pela reitoria da UFMG. Mesmo assim, panfletamos e conversamos com cada estudante, vendemos mais de 100 jornais e mais de 30 livros para os calouros de diversos cursos e nos reunimos com eles, entendendo a importância de organizar os negros dentro das universidades!
Durante esses dias, os estudantes mostraram um grande interesse em conhecer mais sobre a perspectiva de luta radical do movimento negro e em se organizar. Tal resultado é fruto de um intenso debate local sobre a importância dos núcleos da Frente nos mais diversos espaços em prol da edificação do poder popular. Dentro da UFMG, o trabalho se iniciou no final do ano de 2025, a partir de passagens em salas, panfletagens, brigadas do jornal A Verdade, reuniões para estabelecer planos de lutas, participação em mesas de debate e uma apresentação do movimento.
As Cotas
Em agosto de 2012, o Brasil aprovou o Projeto de Lei 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, que busca facilitar o acesso de grupos desfavorecidos na sociedade, incluindo negros, à universidade pública. Mas essa lei não foi aprovada por benevolência dos parlamentares, mas sim diante de muita luta do povo negro, ao qual, desde sua chegada ao Brasil, foram reservadas as condições mais desumanas, primeiro com o sequestro e depois com a escravidão.
Na falta de uma política imediata de reparação e compensação no Brasil após o fim da escravidão, os negros e negras continuaram segregados socialmente, nas periferias e favelas, nos piores empregos e sem acesso integral à educação. A política de cotas vem no sentido de inserir grupos socialmente marginalizados em espaços que anteriormente não poderiam ser acessados por tais grupos.
Nos últimos anos, a Lei de Cotas vem sofrendo diversos ataques da extrema-direita fascista, como é o caso da recente lei estadual de SC 19.722/2026, sancionada pelo governador autoritário Jorginho Mello. Já em Minas Gerais, a partir da mesma lógica racista, o governador fascista Romeu Zema, no início do ano, se omitiu integralmente e postergou enquanto pôde o projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos para pessoas negras. Tais ações buscam desmantelar esses importantes instrumentos de acesso ao ensino superior e aos cargos públicos para uma parcela da sociedade historicamente relegada.
Mas, mesmo que a Lei de Cotas seja um avanço na sociedade brasileira, ela ainda segue a lógica capitalista de acesso à universidade. Precisamos que o ingresso ao ensino superior não seja apenas para alguns, mas para quem quiser acessá-lo. O vestibular é um mecanismo de exclusão de classe, fazendo com que as pessoas que tiveram melhores condições de estudo e maior estrutura em sua infância e adolescência acessem com mais facilidade algo que deveria ser um direito para todos.
Luta negra dentro das universidades
Dentro do âmbito universitário, não bastasse a dificuldade para entrar no ensino superior, os estudantes negros ainda têm a dificuldade para permanecerem nas instituições federais. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, apenas 2,9% dos pretos e pardos entre 18 e 24 anos concluem a sua graduação, enquanto 6,5% dos brancos na mesma faixa etária têm graduação completa (2024).
Mesmo nas faculdades federais, os desafios são múltiplos, como: insuficiência de políticas adequadas para permanência (auxílio-moradia, alimentação, transporte e saúde), limites de vagas nas moradias universitárias, custo de vida elevado em várias cidades, falta de bolsas de ensino, pesquisa e extensão, elevado preço das cantinas, falta de perspectiva de empregabilidade no futuro, etc.
Todos esses problemas persistem na medida em que a lógica do lucro determina a nossa educação e são criadas barreiras pelo próprio governo federal para impedir o investimento na área, como é o caso do arcabouço fiscal, nome bonito para o “Teto de Gastos”, que limita investimentos em áreas fundamentais para o bem-estar da população com o intuito de priorizar o pagamento da dívida pública para banqueiros e investidores estrangeiros.
Uma nova alternativa para o movimento negro brasileiro
Lançada oficialmente no dia 1º de fevereiro de 2025, a Frente Negra Revolucionária foi criada para trazer uma alternativa de luta emancipatória para o povo preto no Brasil. Afinal de contas, se estamos falando de uma estrutura que há quase 500 anos perpetua a escravização e a superexploração da maioria da nossa população a ferro e fogo, só invertendo-a pelo avesso para garantir vida, dignidade e liberdade para essa parcela tão marginalizada da população, a partir da luta pelo socialismo!
Apostamos na organização e na revolta da grande massa preta brasileira, reserva imprescindível para a revolução em nosso país, para dar um basta definitivo em toda violência policial, na escala 6×1, pelo fim do arcabouço fiscal, contra o racismo, o encarceramento em massa, a precarização do trabalho, o analfabetismo, o desemprego e tantos outros problemas estruturais sustentados e nutridos pelo capitalismo. É preciso olhar para as raízes das dificuldades em nossas vidas para trazer soberania popular não somente ao povo preto, como também a todos os filhos e filhas da classe trabalhadora no Brasil e no mundo.
Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Frente Negra Revolucionária vem lutando não somente para organizar os negros para lutarem contra o racismo tão presente em nossas vidas, mas para acabar de vez com essa estrutura que nos destrói diariamente, a partir da luta pelas necessidades concretas e objetivas dos negros. Queremos permanecer, queremos teto, alimentação, bolsas, estudar com dignidade, nos formar e, acima de tudo, construir uma sociedade em que os limites sejam os nossos sonhos!
Guerreando todos os dias, assim como Zumbi, Aqualtune, Samora Machel, Amílcar Cabral, Thomas Sankara e Manoel Aleixo, pelo poder popular e o socialismo!