Resumo objetivo:
Em 8 de março, duas mulheres indígenas foram vítimas de feminicídio: Ereni Benites, de 35 anos, foi queimada viva pelo ex-companheiro em Mato Grosso do Sul, enquanto Vanusa Smikadi, de 16 anos e grávida, morreu no Tocantins após sofrer agressões repetidas do ex-parceiro e suposta negligência no atendimento à saúde. Um estudo de 2025 aponta que a violência contra mulheres indígenas cresceu 258% na última década, superando a média nacional.
Principais tópicos abordados:
1. Feminicídio de mulheres indígenas: A notícia detalha dois casos brutais ocorridos na mesma data.
2. Violência de gênero e vulnerabilidade: Destaca o aumento alarmante da violência contra mulheres indígenas, superior à média nacional.
3. Negligência institucional: Critica a falha no atendimento à saúde e a demora nas transferências hospitalares, que podem ter contribuído para uma das mortes.
4. Responsabilização: Aborda a divisão de responsabilidades entre a saúde indígena (primária) e as redes municipais/estaduais (média e alta complexidade).
Em 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, duas indígenas morreram em casos relacionados à violência de gênero. Ereni Benites, do povo Kaiowá, foi encontrada morta dentro da própria casa, na aldeia Paraguassu, em Paranhos (MS). Ao mesmo tempo, a aldeia Funil, em Tocantínia (TO), se despedia de Vanusa Smikadi, da etnia Xerente. Vanusa tinha 16 anos e estava grávida.
Ereni Benites tinha 35 anos e foi vítima de um feminicídio brutal. Ela teve o corpo carbonizado. O autor do crime é Juares Fernandes, ex-companheiro da vítima, pai dos seus filhos e assassino confesso. Dois dias após o crime, ele contou à Polícia Civil que usou um desodorante aerossol e um isqueiro para atear fogo à casa de madeira onde a mulher estava.
Naquele mesmo dia, Vanusa Smikadi, com uma gestação de sete meses, morreu após um período de internação no Hospital Geral de Palmas (HGP). Pessoas próximas a ela acreditam que a adolescente faleceu em decorrência das agressões que sofria do ex-companheiro, cujo nome não foi revelado. A informação é reforçada pelo boletim de ocorrência, que indica que o caso é investigado como feminicídio.
Os amigos e familiares aguardam o laudo do Instituto Médico Legal (IML) mas, para a professora e indigenista Heid Karla, que acompanhou de perto os últimos dias de Vanusa, a jovem foi vítima da violência somada ao descaso.
“O que aconteceu com a Vanusa foi a negligência em todas as esferas em que ela poderia ter sido atendida”, declara Karla. De acordo com a professora, Vanusa foi agredida pelo ex-companheiro cerca de dez dias antes da morte.
Outras fontes ouvidas pelo Brasil de Fato confirmam as sucessivas agressões sofridas por Vanusa. Uma foto enviada à reportagem mostra a porta da casa onde ela vivia, com marcas dos cortes de facão feitos pelo acusado.
As agressões teriam causado um aborto. Apesar disso, após os primeiros atendimentos no sistema de saúde, a jovem foi mandada de volta para a aldeia – ainda com o bebê no ventre.
“Ela ia para o hospital em Miracema [Miracema do Tocantins, a cerca de 25 quilômetros de Tocantínia], eles mandavam ela embora para casa, para a aldeia. A saúde indígena via o jeito que ela estava e mandava de novo para Miracema. Isso foi umas quatro vezes, esse vai e volta”, conta Karla, que acompanha mulheres indígenas vítimas de violência por meio do coletivo Renascer.
A Secretaria da Saúde Indígena, vinculada ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), realiza o atendimento primário e informa ter garantido o atendimento pré-natal da jovem desde setembro de 2025. O MPI reforça, porém, que “a oferta de serviços de média e alta complexidade [necessários após complicação da gravidez] é de responsabilidade das redes municipais e estaduais de saúde, conforme determina a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI)”.
Em resposta ao Brasil de Fato, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) diz que Vanusa deu entrada no Hospital Regional de Miracema do Tocantins, onde recebeu o suporte assistencial necessário da equipe de saúde.
“Durante o período de atendimento na unidade hospitalar, a paciente foi acompanhada e, diante da necessidade de continuidade da assistência em unidade de maior complexidade, foi solicitada transferência por meio do sistema de regulação estadual, sendo posteriormente encaminhada ao Hospital Geral de Palmas (HGP) na quarta-feira (4)”.
Pessoas próximas à adolescente adolescente, porém, criticam o tempo perdido com sucessivas transferências entre unidades de saúde, que teriam contribuído para atraso no tratamento e consequentemente para sua morte.
Violência contra mulheres indígenas
Um levantamento inédito da iniciativa Gênero e Número, publicado em 2025, revela que os registros de violência contra mulheres indígenas aumentaram 258% entre 2014 e 2023. De acordo com a pesquisa, a vulnerabilidade fica ainda mais evidente quando comparada com a média nacional de 207% entre brasileiras de todas as raças no mesmo período.
Com relação ao perfil dos agressores, o padrão se repete como em toda a sociedade. Os companheiros e ex-companheiros se destacam e cometem violência física, psicológica ou sexual.
Segundo o texto de divulgação da pesquisa, “os números escancaram a persistente incapacidade do Estado brasileiro de proteger e amparar uma camada da população historicamente relegada a toda sorte de violências e apagamentos, dentro e fora das aldeias. Mulheres que seguem sendo vitimadas pelas mãos de forasteiros e parentes, vivendo às margens da proteção prevista em legislações que não as alcançam ou as negligenciam”.
Para Karla, o caso de Vanusa evidencia ainda outra violência, mais sutil, a qual é submetida a população indígena. “O preconceito é visível. Não querem atender a população indígena”.
No relatório Violência contra os povos indígenas no Brasil 2024, publicado em 2025 e organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), há um alerta sobre “a desumanização” que, segundo o documento, “também se expressa em relatos de negligência e discriminação no atendimento aos indígenas, por parte da ação pessoal de representantes de instituições de assistência”.
O texto aponta que, no estado de Mato Grosso do Sul, as equipes em campo registraram pelo menos três casos envolvendo violência e discriminação no atendimento hospitalar a pessoas indígenas.
“Tem a violência, digamos, externa, aquelas promovidas pelos inimigos dos indígenas, que vai desde entrar na aldeia atirando, botar fogo em casa de reza, as milícias contratadas para retirar os indígenas das suas terras”, lista Lucia Rangel, antropóloga e assessora do Cimi. “E tem as violências mais indiretas, movidas principalmente pelo racismo. A desconsideração do indígena enquanto um ser humano move essa violência”.