Resumo objetivo:
O artigo relata a experiência de um historiador que identificou um possível anacronismo no filme O Agente Secreto: o nome "Represa Sérgio Motta" aparece em uma cena ambientada em 1977, mas essa homenagem só existiu na realidade a partir de 1980. Inicialmente visto como um erro, o autor pondera que a inclusão pode ter sido intencional, servindo como uma crítica sutil ou recurso narrativo.
Principais tópicos abordados:
1. A percepção crítica de historiadores diante de detalhes anacrônicos em obras cinematográficas.
2. A discussão sobre anacronismos, tratando-os tanto como equívocos quanto como recursos propositais para transmitir mensagens ou ironias.
3. A análise específica do caso do filme, questionando se a menção prematura à represa foi um descuido ou uma escolha deliberada do diretor.
Historiadores são bichos esquisitos. Quando vão assistir a filmes, por vício de treinamento, por vezes acabam prestando atenção a detalhes que as pessoas em geral não atentam. Creio que cacoetes de outras profissões desviariam o olhar para outros aspectos. Enfim, cada um atenta para o que os seus sentidos comandam.
Confesso que um grilo cricrilou na minha cachola quando assisti ao filme O Agente Secreto, no finalzinho de 2025, e que me levou ao cinema pela segunda vez em poucos dias, para conferir se não havia visto algo totalmente disparatado e se minha noção de tempo estava correta.
É uma cena curta, poucos segundos em meio a uma ação passada lá pelos 30 minutos de filme, quando os assassinos de aluguel vão atirar um corpo numa represa no interior do estado de São Paulo. Até aí tudo bem. Algo corriqueiro se tratando de 1977 (corriqueiro desde sempre no Brasil Varonil).
Mas um nome numa parede “bugou” a minha mente e me fez sentir uma tremenda dificuldade em organizar o tempo na ação do filme. O nome era de Sérgio Motta e isso desarranjou meu entendimento linear. Simplesmente, não havia Represa Sérgio Motta em São Paulo, em 1977. Esse nome só apareceria mais de duas décadas depois, o que seria aparentemente um “erro imperdoável” do diretor, um suposto anacronismo descabido, uma eventual falta de cuidado de um detalhe em meio a um filme que se esmerava pela cuidadosa pesquisa da época em que se passava o grosso da ação. Demorou para que eu me localizasse temporalmente no filme, o que se deu apenas quando os ditos assassinos chegaram em Recife para cumprir o seu “trabalho” e ficou impossível não ter certeza de que era 1977 mesmo (no filme, certamente).
Anacronismos, para os historiadores, são quase pecados mortais, porque misturam tempos indevidos em outros tempos, projetando o presente no passado, por exemplo, quando você coloca um Fuzil AK-47 nas mãos de um Homo Erectus (dos antigos mesmo) em plena “Pré-História”. Ou quando coloca um Homo Erectus do passado numa presidência de um país, desconsiderando que nosso antepassado não seria tão estúpido quanto um Homo Erectus contemporâneo, da variante papudinha… Enfim, os trocadilhos de tempo ficam para quem bem entender. O que importa é que datas importam. Não se faz história apenas com datas, mas não se pode errar nessas coisas. Misturar os tempos costuma dar problemas…
No entanto, os anacronismos podem ser propositais e necessários, de acordo com certas necessidades ou propósitos. Usar um termo contemporâneo para falar sobre algo do passado, ou um termo antigo para se referir a algo atual, pode ser uma inteligente operação de qualificação de uma situação, pode ser uma fina ironia. O que não se pode deixar de fazer é ter uma nítida consciência da pertinência de um uso indevido operado com a necessária finesse.
Para ficar num exemplo: as histórias de Os Flintstones mostram personagens da “Idade da Pedra” vivendo o “American Way of Life” (“Estilo de Vida Americano”) em plena Pré-História e convivendo com dinossauros que teriam sido extintos muitos milhões de anos antes que o primeiro ser definível como humano pisasse no planeta. Mas ninguém duvida da pertinência e eficácia dos anacronismos ali presentes.
Pois então, que faria o nome de uma represa que não existia em 1977 naquele filme? Descuido? Ignorância? Considerando que o filme tece seu enredo com finesse, resta a opção de uma proposital presença que traduzisse alguma intencionalidade muito sutil do diretor. Daqui pra frente, arrisca-se uma interpretação, que corre o risco da impertinência, mas, ao mesmo tempo, nos lembra que as leituras são possibilidades que às vezes escapam a quem produz uma obra cinematográfica ou outra.
Vamos arranjar as datas: a Usina Hidrelétrica de Porto Primavera – Engenheiro Sérgio Motta começou a ser construída em 1980, durante os governos do ditador João Figueiredo no país e do “biônico” Paulo Maluf em São Paulo. Situada no rio Paraná, entre os municípios de Rosana (SP) e Batayporã (MS), possui a extensão de mais de 10 km de barragem. Sua construção provocou um impacto social e ambiental expressivo, cuja história muitas vezes é apagada pelos discursos do progresso. Devido aos altos impactos e custos, sua inauguração só foi realizada em 1999, tendo a última turbina sido instalada em 2003, portanto, sob a presidência do tucano FHC (sigla do entreguista-mor de nossa história) e o igualmente governo tucano paulista de Mário Covas. Essas datas são importantes. Diga-se de passagem, que entre 2006 e 2009, estive várias vezes por lá, quando fui professor na UFMS de Nova Andradina e por ali atravessava quando seguia para Campinas.
Pois bem. A usina recebeu o nome do Engenheiro Civil Sérgio Roberto Vieira da Motta (1940-1998), personagem de movimentada biografia, que passou da militância de esquerda até o mais exaltado neoliberalismo, tendo exercido o Ministério das Comunicações na presidência FHC. Seus vínculos com o dito presidente passavam pela propriedade de extensa fazenda em Butiris (MG), assunto que os deixava em palpos de aranha. Motta tornou-se o paladino-mor do processo de privatização em massa de bens públicos brasileiros, num festival de entrega a preço de banana de empresas nacionais a grupos dos mais diversos calibres, sendo extensamente documentado na obra Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr. Com o falecimento de Motta no exercício do cargo, a represa tomou seu nome.
A tucanalha, durante o tempo em que presidiu o país, promoveu essa liquidação do patrimônio nacional e só não foi mais longe, porque a oposição de setores importantes da sociedade barrou algumas iniciativas como a liquidação da Petrobrás ou das universidades federais. A privataria da Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, rendeu anos depois dois grandes desastres socioambientais em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), uma vez que tais empresas passaram a descumprir sistematicamente normas de segurança, sob o suposto e falso argumento de que eram “burocracia” e que “atrapalhavam os negócios”. As vítimas nunca são os gestores e os acionistas, mas cidadãos comuns, expostos à sanha dos negócios.
Alijados do governo federal em 2002, promoveu uma sórdida e feroz campanha de desgaste, com forte apoio midiático, parlamentar e judiciário, que ganhou robustez ao longo dos anos e culminou com o não reconhecimento do resultado eleitoral de 2014 e o golpe de Estado de 2016, quando sob um pretexto pífio, depôs a presidente Dilma Rousseff e colocou um vampiro na presidência. Seguiu-se daí um aprofundamento das políticas neoliberais promovidas pelo dito ser das sombras.
O “efeito de arrasto” da sórdida campanha contra Dilma, que passou pela total desqualificação do debate político, gerou um desgaste da própria tucanalha, levando ao governo, em 2018, um ser ainda mais repulsivo que o vampiro, saído dos esgotos mais profundos da sociedade brasileira. Assim como os liberais de todo o tipo fazem com os fascistas, a tucanalha achou que iria domar o presidente-hidrófobo, e deu no que deu. Passados quatro anos, agora estão apostando em uma versão “fascismo-light”, pra ver se a coisa funciona.
Voltemos às salas de cinema, numa breve passagem por algumas obras de Kleber Mendonça Filho.
Em 2016, estreando no Festival de Cannes, o elenco do filme Aquarius protestou contra o golpe então ocorrido no Brasil, contra a legítima presidente Dilma Rousseff, o que provocou uma tremenda saia-justa da mídia que apoiou o golpe, que tentou colocar panos quentes nas cenas passadas nas escadarias do festival.
Em Aquarius, a denúncia de um certo empresariado com ar moderninho, munido de um discurso pseudo-avançado, mas capaz das maiores brutalidades quando seus interesses são minimamente arranhados. A especulação imobiliária pesada toma a cena do filme.
Em 2019, Bacurau trouxe à tela o desprezo que certos grupos sociais do país devotam à maioria do povo, não hesitando em “vender” uma pequena cidade do Sertão nordestino para que um grupo de gringos pratique um safari humano. Como sói acontecer, os traíras locais acabam sendo liquidados pelos seus patrões ianques, descobrem muito tarde que são peças descartáveis numa engrenagem perversa. Mas em Aquarius, a reação telúrica da população impede que o massacre da pequena cidade aconteça. Houve quem alegasse o exagero em Mendonça caracterizar esse entreguismo visceral da maneira que fez em Bacurau, mas quem viu um little banana pedindo ao Laranjão de Washington para invadir o Brasil, os bonés de MAGA usados por supostos patriotas e o bandeirão dos EUA na Avenida Paulista não pode duvidar que esse tipo de gente – sem regionalismos simplistas ou discriminações de origem imigrante, por favor, porque há muitos brasileiros de valor no Centro-Sul do nosso país – exista e que seja capaz de vender pequenas e grandes cidades brasileiras para serem campos de safari de gringos entediados. O desprezo que essa gente tem pelo país que lhes garante a sobrevivência e a ascensão social é de causar nojo.
Finalmente, em O Agente Secreto (2025), a curta e fugaz alusão ao “campeão da privataria” que nomeia uma represa onde é atirado um cadáver assassinado não me parece casual ou fortuita. Um dos pontos centrais do filme, além das referências telúricas ao Recife e à violência da ditadura, é o “conteúdo” dessa mesma ditadura. Mais que a violência resultante de uma cultura política aparece como instrumento para viabilizar uma política de saque às riquezas produzidas pelo povo do país.
O móvel que leva ao assassinato do professor Marcelo não é uma espécie de “tara pela violência pura e simples”, é a extorsão de uma pesquisa desenvolvida num Laboratório de Engenharia Elétrica de uma universidade pública brasileira em Pernambuco, que desperta a cobiça do empresariado multinacional. Essa cobiça é representada por um preposto local (nos mesmos moldes dos vendedores do safari humano em Bacurau), o empresário e dirigente de cargo estatal Henrique Ghirotti, que veio a Recife (como pessoense, não falarei o “ao”) para liquidar a pesquisa local e colocar a serviço do grande capital, sob alegações de “eficiência”, “interesses nacionais” e essa seboseira toda que nos vomitam diariamente por aí.
Seria Ghirotti o agente secreto? Aquele que usa toda uma fachada de respeito aos “interesses mais altos do país” e que opera sob uma lógica neocolonialista, que não se furta a pedir que uma potência estrangeira invada o próprio país onde nasceu, mas que o despreza profundamente?
Bom, isso é um exercício de leitura que pode até ser impertinente, mas que me faz encontrar alguma razão para aquela placa anacrônica na represa do filme. Seria um anacronismo por acidente? Seria proposital? Se for proposital, o tal anacronismo veio no tempo certo. Frio e cortante como a lógica daqueles que não veem o país como mais que um grande terreno a ser explorado e descartado, tal e como Frei Vicente do Salvador já notara lá nos começos do século XVII, para continuarmos na brincadeira do anacronismo.
Trazendo para as semanas mais recentes, no interior da Paraíba se executa a construção de um Radiotelescópio, o BINGO (Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), cuja finalidade é o estudo energia escuras do universo. A sua construção promete ser um fator de desenvolvimento local e de emancipação científica, um requisito para elevar o nosso país a uma condição mais condigna ao seu povo. De repente, começa uma gritaria absurda de “espionagem chinesa”, digna dos antigos filmes de agente secreto de Charlie Chan, cuja única finalidade é manter o nosso país e a nossa região no cabresto das grandes potências. Mais uma vez, os vendedores e safari humano e as forças telúricas se encontram cara a cara no Sertão. Sigamos na luta!
*Ângelo Emílio da Silva Pessoa é professor de história, vinculado ao Departamento de História, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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