Resumo objetivo:
A candidatura de Flávio Bolsonaro, inicialmente vista como um instrumento de controle político, tornou-se competitiva, gerando debate sobre seu significado para a democracia brasileira. Discute-se se ele representa um "bolsonarismo moderado" ou uma ameaça reacionária, com questionamentos sobre seu suposto caráter golpista. O artigo pondera que o teste decisivo não será ideológico, mas sim seu respeito às instituições democráticas e à legalidade.
Principais tópicos abordados:
1. A competitividade eleitoral de Flávio Bolsonaro e o debate sobre seu papel como uma possível versão moderada do bolsonarismo.
2. A análise do bolsonarismo como movimento reacionário, não simplesmente "radical" ou "moderado".
3. A discussão sobre eventuais riscos à democracia, com foco na postura de Flávio Bolsonaro em relação a instituições como o STF, o Congresso e as Forças Armadas.
4. A defesa de que o critério para avaliar a candidatura deve ser seu compromisso com o ordenamento institucional, e não apenas posições ideológicas.
Empate técnico. As pesquisas sugerem que a candidatura de Flávio Bolsonaro, lançada como ferramenta de controle da direita pelo Bolsonaro sênior, tornou-se competitiva. Como decifrar seu significado para a democracia brasileira?
Joel Pinheiro argumentou que a democracia precisa de "um bolsonarismo moderado". Depois, opinou que a candidatura do 01 poderia representar tal entidade. Numa réplica, Celso de Barros apontou no fracasso da "estratégia da direita brasileira" de moderar o bolsonarismo a fonte da coroação do filho pródigo. "Flávio é golpista", cravou.
A palavra "moderado", bem como sua antÃtese, "radical", turvam o olhar. As democracias estáveis comportam correntes "radicais" sem entrar em colapso âe, aliás, têm o hábito de moderá-las. Veja-se, na direita, Milei (Argentina), Kast (Chile) ou Meloni (Itália). E, na esquerda, Mujica (Uruguai), Boric (Chile) ou Tsipras (Grécia). Além disso, o bolsonarismo não é moderado nem radical, mas reacionário. O termo, no caso, sintetiza um diagnóstico histórico preciso, não uma ofensa.
A pergunta relevante: como fica a democracia diante da candidatura reacionária do Bolsonaro substituto? Ou, de modo mais brutal: Flávio é golpista?
O discurso militante tem a resposta pronta, assentada sobre critérios peculiares: o objetivo de anistiar a quadrilha golpista, a pretensão de promover o impeachment de juÃzes do STF ou o alinhamento internacional com Trump. Nesse passo, a análise polÃtica cede lugar à campanha eleitoral.
A Constituição atribui ao Congresso a prerrogativa de anistiar âe, ao contrário do que alegou um outro Flávio, o criativo Dino, não exclui o perdão por crime de golpismo. Uma anistia seria um grave erro polÃtico, mas não um golpe. O Senado tem o direito legal de impedir ministros do STF. Numa deliberação desse tipo, votariam juntos senadores imbuÃdos de motivação "republicana" ou do desejo de "vingança" (para usar os termos escolhidos por Celso de Barros). Quanto ao mais, lamentavelmente, inúmeros governantes de paÃses democráticos da América Latina perfilam-se atrás de Trump.
à golpista? Lula não é golpista por adorar ditadores "companheiros", chamem-se Castro, Maduro ou Putin. Os testes legÃtimos sobre o 01 não giram em torno de ideologia, mas de sua postura diante do edifÃcio institucional e legal da democracia.
Flávio tem o direito de apresentar um projeto de lei para trocar as urnas eletrônicas pelo "voto impresso auditável", assim como poderia propor a substituição da luz elétrica por lampiões a querosene. Mas, se o Congresso recusar a ideia piramidal, deve curvar-se aos resultados. Tem, ainda, o direito de trabalhar pelo impeachment de juÃzes de capa preta no foro do Senado. Não pode, porém, nem de brincadeira, ameaçar o STF com a mobilização de "um cabo e um soldado". E, sobretudo, precisa aceitar que as Forças Armadas não desempenham nenhuma função polÃtica.
Sobrenome é destino? A resposta, de interesse nacional, não cabe a Joel ou Celso, mas a Flávio. Se o 01 seguir os rastros do 00, seu destino, cedo ou tarde, será compartilhar as instalações que abrigam o progenitor. Mas ele dispõe de livre arbÃtrio: não é escravo de uma maldição ou alguma "lei da História". Demorará pouco para conhecermos sua resposta.