Resumo objetivo:
A literatura japonesa de mistério está ganhando popularidade no Brasil, com editoras investindo tanto em autores clássicos inéditos quanto em nomes já consagrados. Diferente da tradição ocidental focada em "quem fez" (whodunit), os autores japoneses frequentemente exploram o "como fez" (howdunit), com narrativas que enfatizam tensão psicológica e elementos culturais próprios. Pioneiros como Edogawa Ranpo, que fundou a Mystery Writers of Japan, e autores como Seichō Matsumoto e Tokurō Nukui ilustram essa abordagem distinta, mesclando lógica dedutiva com o grotesco e aspectos sociais do Japão.
Principais tópicos abordados:
1. Crescimento do interesse e da publicação de literatura japonesa de mistério no Brasil.
2. Diferenças entre as tradições ocidental (whodunit) e japonesa (howdunit) do gênero policial.
3. A influência histórica de Edogawa Ranpo e o desenvolvimento do gênero no Japão.
4. Características distintivas da narrativa japonesa, como tensão psicológica, contexto cultural e exploração do lado obscuro humano.
Da investigação clássica ao terror psicológico, a literatura japonesa de mistério vive um momento de descoberta no Brasil. Em meio ao crescimento do interesse por narrativas de suspense e noir vindas do Japão, editoras apostam tanto na recuperação de autores fundamentais do gênero ainda inéditos por aqui, quanto em nomes já publicados.
Independente do lugar onde é escrito, um livro de mistério costuma partir de uma estrutura conhecida: o crime, a investigação e a revelação de um culpado. A simplicidade desse esquema, porém, não torna o gênero previsÃvel. O caminho que um autor percorre do crime até sua resolução registra o seu estilo e revela sua cultura.
Embora muitos livros cheguem aqui sendo comparados a Agatha Christie, são poucas as semelhanças entre os modos de narrar e desvendar mistérios. Enquanto a Rainha do Crime domina o "whodunit" (histórias que buscam responder "quem fez isso"), os japoneses se aproximam mais do que seria um "howdunit" (ou "como fez isso").
No Ocidente, a década de 1920 marcou a consolidação da ficção policial com autores como Dorothy L. Sayers, Ellery Queen e os últimos trabalhos de Arthur Conan Doyle. No Japão, o desenvolvimento do gênero ocorreu de forma mais discreta, interrompido durante a Segunda Guerra Mundial, quando narrativas policiais foram consideradas inapropriadas.
Quem mudou esse cenário foi TarŠHirai. Sob o pseudônimo de Edogawa Ranpo (nome que soa propositalmente como o do escritor Edgar Allan Poe ), ele introduziu o imaginário cultural japonês à lógica dedutiva ocidental e deu um novo rumo ao suspense no Japão.
"A partir daÃ, o policial japonês passa a assumir caracterÃsticas próprias", afirma Ana Paula Laux, jornalista especializada em suspense e mistério. Ranpo é tido como o primeiro autor moderno de mistérios no Japão e fundador da organização Mystery Writers of Japan (Escritores de Mistério do Japão).
O objetivo dessa sociedade, que no mês de junho completará 60 anos, é pesquisar e publicar literatura policial nacional e estrangeira.
Edogawa foi introduzido ao Brasil com "A Besta nas Sombras", publicado pela HarperCollins. A narrativa metalinguÃstica apresenta um autor preso em uma trama de mistério em que uma amiga é vÃtima e seu rival é o maior suspeito.
Na obra, ele divide os escritores policiais em dois tipos: "os âcriminososâ, interessados apenas em crimes e que só se satisfazem ao discorrer acerca da psicologia brutal do criminoso mesmo quando escrevem romances policiais baseados em deduções; e os âdetetivescosâ, sempre de olhos voltados para as ações de um detetive racional e inteligente, indiferentes à psicologia do malfeitor".
"Acho essa classificação bem interessante porque ela traduz a essência do gênero policial, uma tensão constante entre o olhar do detetive e a mente do criminoso", afirma Laux. Segundo a jornalista, o legado de Edogawa se percebe principalmente na exploração do grotesco, da tensão psicológica e do lado obscuro da natureza humana.
Um autor que embarcou nas dimensões mais psicológicas propostas por Edogawa é SeichŠMatsumoto, autor que chega ao Brasil pela Todavia. Seu "O Expresso de Tóquio" é um mistério contado de maneira incomum. A história acompanha um investigador que busca derrubar um álibi, mas sua obstinação logo se torna obsessão.
à também uma história intrinsecamente japonesa em que a pontualidade, pilar fundamental da cultura, sustenta uma trama em que horários de partidas e chegadas de trens guardam a resolução do mistério.
Outro que chega ao Brasil nessa mesma leva é TokurŠNukui, que tem seu "Os Gritos" publicado pela Rocco. O livro noir acompanha a investigação de uma série de raptos e assassinatos de meninas.
"Acredito que as emoções humanas, a curiosidade e o desejo são universais. As diferenças nos contextos nacionais e culturais moldam a forma como essas qualidades se expressam e esse talvez seja um dos aspectos que os leitores estrangeiros consideram interessantes", diz o autor, atual presidente do Mystery Writers of Japan.
Segundo TokurÅ, a tradição da ficção de mistério gerou uma forte demanda por abordagens novas. Isso explica o apelo de trazer histórias inéditas para o Brasil.
Uketsu é mais um nome que chegou recentemente ao Brasil. Sob um pseudônimo, ele também comanda um canal no YouTube no qual não revela seu rosto e posta vÃdeos com significados ocultos. Por aqui foram publicados seus tÃtulos "Casas Estranhas" e "Casas Estranhas 2", pela IntrÃnseca, e "Imagens Estranhas", pelo selo Suma, da Companhia das Letras âtodos com tramas de mistério contadas por meio de desenhos e plantas arquitetônicas.
Diferente dos outros autores, que recorrem a uma escrita mais vaga e ambÃgua, Uketsu adota um estilo direto e literal, sem pudor ao descrever horrores. A avaliação é do tradutor de seus livros, Jeferson José Teixeira. "O japonês procura sempre evitar dizer as coisas diretamente", explica, reafirmando a exceção.
Os livros que chegam ao Brasil exploram cenários tipicamente japoneses e privilegiam a investigação do que a construção dos personagens vÃtimas e suspeitos. Muitas vezes, as vÃtimas não têm seu passado narrado e os assassinos permanecem em silêncio. São obras que não poupam os leitores dos detalhes e abusam do noir.
Essas diferenças, no entanto, jogam a favor do gênero. A chegada de uma nova linguagem de mistério ao Brasil permite conhecer novos parâmetros para o gênero e abre as portas para a chegada de novos nomes, como Seishi Yokomizo, Akimitsu Takagi e Natsuo Kirino.