Resumo objetivo:
Foi lançado no Rio Grande do Sul o aplicativo "Meu Corre", uma ferramenta digital desenvolvida para que trabalhadores de plataformas (como entregadores e motoristas) registrem seus ganhos, custos e tempo de trabalho. O projeto, liderado por pesquisadores e sindicatos, busca inverter o controle dos dados – atualmente concentrado nas empresas –, dando aos trabalhadores informações para analisar sua realidade econômica. A iniciativa surgiu de pesquisas que identificaram a troca informal de dados entre os trabalhadores e visa tornar visíveis os custos ocultos do trabalho, como combustível, manutenção e tempo ocioso.
Principais tópicos abordados:
1. Transformação das relações de trabalho pela economia de plataformas.
2. Lançamento e objetivos do aplicativo "Meu Corre" (empoderamento dos trabalhadores através do registro de dados).
3. Controle de dados como ponto central de disputa entre plataformas e trabalhadores.
4. Custos invisíveis do trabalho por aplicativo (combustível, manutenção, tempo ocioso).
5. Colaboração entre instituições no desenvolvimento (sindicatos, Dieese, academia e órgãos de fomento).
A expansão do trabalho mediado por plataformas digitais tem transformado profundamente as relações laborais no Brasil e no mundo. Entregadores e motoristas organizam sua rotina a partir de aplicativos que definem corridas, rotas, avaliações e remuneração. Nesse contexto, uma nova ferramenta digital busca inverter a lógica do controle de dados, colocando nas mãos dos próprios trabalhadores informações sobre o funcionamento real dessa atividade.
O projeto Meu Corre, apresentado na terça-feira (10) na sede do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas do Rio Grande do Sul (Sindipolo/RS), em Porto Alegre, reúne pesquisadores, organizações sindicais e iniciativas da economia solidária. A ferramenta foi desenvolvida para ajudar trabalhadores de aplicativos a registrar ganhos, custos e tempo de trabalho, produzindo um banco de dados que permita compreender melhor a realidade da chamada economia de plataformas.
O encontro foi organizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com apoio do Instituto Trabalho e Transformação Social, e contou com a participação de representantes do Sindicato dos Motoristas de Transporte Privado Individual por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli/RS) e do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do estado (Sindimoto).
Durante a atividade, o geógrafo Igor Dalla Vecchia, coordenador do projeto, apresentou o funcionamento da ferramenta e os objetivos da iniciativa. Segundo ele, a proposta surgiu da percepção de que os trabalhadores produzem diariamente uma enorme quantidade de dados, mas essas informações permanecem sob controle exclusivo das empresas que operam as plataformas.
“O objetivo central do projeto é resgatar as informações do trabalho em plataformas digitais, cujos dados hoje pertencem apenas às empresas”, afirmou.
A origem de uma ferramenta coletiva
A ideia do aplicativo começou a tomar forma a partir de pesquisas acadêmicas sobre trabalho por aplicativo. O desenvolvimento do projeto está ligado a estudos realizados no Rio de Janeiro, que analisaram a comunicação entre trabalhadores em grupos de mensagens instantâneas.
De acordo com Vecchia, foi nesse ambiente que surgiu a percepção de que entregadores e motoristas já trocavam muitas informações úteis entre si, mas sem um sistema que permitisse consolidar esses dados de forma organizada.
“A ideia surgiu de pesquisas em grupos de WhatsApp, derivadas da minha tese de doutorado. Ali percebemos que os trabalhadores trocavam muitas informações, mas não tinham isso sistematizado em um lugar só”, explicou.
A partir dessa constatação, foi criada uma parceria com o designer de experiência do usuário Cristiano Dalbem para desenvolver o aplicativo. O projeto recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
O resultado foi o Meu Corre, uma ferramenta digital que permite aos trabalhadores registrar seus ganhos e também os custos associados ao trabalho, como combustível, manutenção do veículo ou alimentação durante a jornada.
Segundo o coordenador do projeto, essa diferença entre receita e gasto costuma ser invisível nas informações fornecidas pelas plataformas. “O aplicativo permite que os trabalhadores identifiquem não só o quanto ganharam, mas também quanto gastaram para trabalhar”, explicou.
Custos invisíveis do trabalho
A lógica de funcionamento das plataformas digitais costuma apresentar ao trabalhador apenas os valores pagos por corrida ou entrega. No entanto, diversos custos recaem diretamente sobre quem executa o serviço.
Entre eles estão gastos com combustível, manutenção de veículos, compra de equipamentos, alimentação durante o expediente e até o tempo dedicado a permanecer disponível no aplicativo aguardando novas corridas.
Um dos indicadores monitorados pelo aplicativo é justamente o chamado tempo ocioso, período em que o trabalhador permanece conectado à plataforma, circulando pela cidade ou aguardando chamadas.
Esse dado tem sido apontado por pesquisadores e sindicatos como um dos fatores centrais na discussão sobre remuneração e jornada de trabalho no setor.
Segundo Vecchia, compreender o tempo efetivo de trabalho é essencial para avaliar a renda real obtida pelos trabalhadores. “Um dado muito importante é o tempo ocioso, quando o entregador fica na rua aguardando chamadas. Esse tempo é decisivo nas discussões nacionais sobre regulamentação”, afirmou.
Plataformas e controle por dados
O avanço do trabalho mediado por aplicativos tem sido acompanhado por um intenso debate sobre a forma como as plataformas utilizam dados e algoritmos para organizar a atividade laboral.
As empresas afirmam que os aplicativos oferecem flexibilidade e autonomia aos trabalhadores. Em diferentes países, companhias como Uber, iFood e outras plataformas defendem que motoristas e entregadores atuam como trabalhadores independentes.
Por outro lado, sindicatos e pesquisadores argumentam que o funcionamento dos aplicativos cria novas formas de controle do trabalho, muitas vezes baseadas em sistemas automatizados de avaliação, pontuação e distribuição de corridas.
Segundo Vecchia, o uso intensivo de dados é uma característica central desse modelo. “O dado é uma ferramenta de controle das empresas”, afirmou. “As plataformas utilizam informações para alterar constantemente as condições de trabalho.”
Ele observa que elementos como gamificação, metas e rankings passaram a integrar a dinâmica do trabalho por aplicativo. Os mecanismos incentivam jornadas prolongadas e intensificam a competição entre trabalhadores, ao mesmo tempo em que tornam menos transparente o cálculo da remuneração.
Produzir dados para disputar políticas
Uma das propostas centrais do projeto é criar um banco de dados contínuo sobre o trabalho em plataformas digitais, algo que ainda é considerado raro no Brasil. Pesquisas nacionais costumam capturar apenas recortes temporais da realidade, o que dificulta acompanhar mudanças rápidas na dinâmica das plataformas.
Vecchia avalia que a produção de dados a partir do próprio cotidiano dos trabalhadores pode contribuir para preencher essa lacuna. “O diferencial do projeto é produzir um volume de dados contínuo que muitas pesquisas nacionais não conseguem captar”, explicou.
Ele compara a iniciativa ao papel desempenhado historicamente pelo Dieese, que produz estudos para subsidiar negociações e debates sobre condições de trabalho. “De certa forma, buscamos fazer algo parecido com o que o Dieese faz: produzir informações que possam contrapor dados oficiais ou financiados pelas próprias empresas”, afirmou.
O crescimento do aplicativo
O aplicativo começou a ser utilizado em 2024 e, segundo os responsáveis pelo projeto, já reúne um banco de dados considerado relevante para análises sobre o setor.
Atualmente, mais de oito mil usuários estão cadastrados na plataforma disponível na loja de aplicativos do Google. A ferramenta permite que cada trabalhador acompanhe individualmente sua renda líquida, estabeleça metas de ganho e compare resultados entre diferentes plataformas.
Além disso, os dados podem ser exportados para análises mais detalhadas. Segundo Vecchia, o objetivo é que o aplicativo funcione tanto como instrumento de organização pessoal quanto como ferramenta coletiva. “Atualmente a ferramenta ajuda o trabalhador a entender suas próprias finanças”, explicou. “O próximo passo é usar análises agregadas e anonimizadas para gerar pressão política.”
A ideia é que essas informações possam subsidiar discussões sobre regulamentação do trabalho por aplicativos e contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas ao setor.
O debate sobre regulamentação
O crescimento do trabalho por aplicativos tem impulsionado discussões sobre direitos trabalhistas em diferentes países. No Brasil, o tema ganhou destaque nos últimos anos com mobilizações de entregadores e motoristas, além de propostas de regulamentação em debate no Congresso Nacional.
Entre os pontos discutidos estão remuneração mínima, proteção social, transparência nos algoritmos e reconhecimento do vínculo de trabalho.
Representantes sindicais presentes no encontro em Porto Alegre destacaram que o acesso a dados confiáveis sobre a realidade do setor é um elemento importante para esse debate.
Para Vecchia, o controle das informações pelas empresas cria uma assimetria que dificulta a defesa de direitos. “O projeto busca romper o oligopólio das plataformas sobre os dados”, afirmou. “Nossa posição é que essas informações pertencem também aos trabalhadores e devem servir para defender seus direitos.”
Segundo ele, a expectativa é que a ampliação da base de usuários permita construir indicadores capazes de revelar com mais precisão as condições reais de trabalho nas plataformas.