Resumo objetivo:
José Mojica Marins, nascido em 1936, foi um cineasta pioneiro do terror brasileiro, famoso por criar o icônico personagem "Zé do Caixão". Seu filme "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) marcou o início do gênero no país, destacando-se pelo tom provocador e anticlerical. Mojica enfrentou censura durante a ditadura militar e tornou-se referência internacional pelo estilo experimental e de baixo orçamento.
Principais tópicos abordados:
1. A trajetória e importância de José Mojica Marins para o cinema nacional.
2. A criação e impacto do personagem Zé do Caixão como ícone do terror e da cultura pop.
3. O filme "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" como marco do gênero e suas características anticlericais.
4. A censura sofrida por suas obras durante o regime militar.
5. Breve contextualização sobre sua infância e primeiros trabalhos no cinema.
José Mojica Marins: a vida e obra do 'Zé do Caixão'
Filme 'À Meia-Noite Levarei Sua Alma' causou grande impacto cultural por ser provocador e anticlerical, tornando-se um dos mais conhecidos do terror latino-americano
Há 90 anos, em 13 de março de 1936, nascia o diretor, ator, roteirista e apresentador José Mojica Marins, uma das figuras mais icônicas do cinema nacional.
Pioneiro dos filmes de terror no Brasil, Mojica se destacou por suas produções independentes e de baixo orçamento, desenvolvendo um estilo original, marcado pelo experimentalismo e pelo diálogo com a contracultura.
Considerado um dos pais do subgênero do horror gore, Mojica teve vários de seus filmes censurados pela ditadura militar, sobretudo por suas críticas à religião organizada. Ele também se tornou internacionalmente conhecido pelo personagem “Zé do Caixão”, que se converteu em um ícone da cultura pop.
Juventude e primeiros trabalhos
José Mojica Marins nasceu em uma sexta-feira 13, em uma fazenda localizada no distrito de Vila Mariana, em São Paulo. Era filho de Carmen Mojica e Antonio André Marins, ambos descendentes de imigrantes espanhóis.
Ainda pequeno, o menino se mudou com a família para a Vila Anastácio, onde o pai começou a trabalhar como gerente de um cinema de bairro. Mojica passou sua infância assistindo às projeções e desenvolveu uma profunda paixão pela sétima arte.
Aos 12 anos, o jovem foi presenteado com uma câmera de 8 mm e passou a gravar filmes amadores, com seus amigos e vizinhos servindo como atores. Em 1949, Mojica produziu seu primeiro curta-metragem, “O Juízo Final”, um filme de ficção científica sobre uma invasão alienígena.
Em 1953, com apenas 17 anos, Mojica montou a Companhia Cinematográfica Atlas. O estúdio foi instalado em uma antiga sinagoga abandonada na região do Brás, onde o cineasta oferecia aulas de interpretação e treinamento técnico e desafiava seus alunos com excêntricos testes de coragem — que iam desde a degustação de insetos até beber champanhe usando um crânio como taça.
Mojica iniciou a produção de seu primeiro longa-metragem profissional em 1954. Intitulado “Sentença de Deus”, o filme ficou inacabado em função da morte da atriz que encarnaria a protagonista. Sua estreia efetiva como diretor ocorreu em 1958, com “A Sina do Aventureiro”, um faroeste que misturava elementos nordestinos, gaúchos e norte-americanos. A obra foi o primeiro longa-metragem brasileiro filmado em formato Cinemascope.
Zé do Caixão e o terror brasileiro
Em 1963, Mojica lançou “Meu Destino em Tuas Mãos”, um drama que narra os infortúnios e as tragédias familiares que acometiam cinco crianças pobres. Nesse mesmo ano, inspirado por um pesadelo, o cineasta criou Zé do Caixão, que se consagraria com um dos personagens mais conhecidos do cinema nacional.
Zé do Caixão é o apelido de Josefel Zanatas (paronomásia de “Satanás”), um coveiro amoral, sádico e niilista, influenciado pelo pensamento nietzschiano e tomado por um profundo desprezo contra a religião organizada. Temido e odiado pelos moradores de sua cidade, Zé do Caixão nutre uma obsessão violenta pela imortalidade. Para isso, ele busca encontrar a “mulher perfeita”, que dará à luz a “criança ideal”, perpetuando sua linhagem sanguínea.
O figurino de Zé do Caixão incorporava características de personagens clássicos do terror, evocando Drácula e Nosferatu. Utilizava cartola, capa preta e unhas alongadas. Por falta de atores interessados em desempenhar o papel, coube ao próprio Mojica a missão de interpretá-lo. Com o tempo, a figura do cineasta acabaria por se confundir com a do personagem, a ponto de Mojica se tornar mais conhecido pelo público como Zé do Caixão do que por seu próprio nome.
Zé do Caixão fez sua estreia como o protagonista do filme “À Meia-Noite Levarei sua Alma”, lançado em 1964. A obra é considerada um marco histórico do cinema brasileiro, inaugurando o gênero de terror no país. Além do impacto cultural, o filme ficou famoso por seu tom provocador e anticlerical, algo bastante escandaloso no Brasil dos anos 60. A obra se tornaria um clássico cult e segue até hoje como um dos filmes mais conhecidos do terror latino-americano.
A saga de Zé do Caixão teve continuidade em 1966, com o lançamento de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”. O filme consolidou a fama de Zé do Caixão e aprofundou o caráter filosófico do personagem: um niilista radical, que rejeita Deus, a moral cristã e qualquer noção de culpa. A obra também se destacou por uma célebre sequência em cores representando o inferno.
Em 1968, Mojica dirigiu “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, uma coletânea de três curtas-metragens de terror, parcialmente roteirizados por Rubens Francisco Lucchetti. Mojica também estreou na televisão, apresentando o programa “Além, Muito Além do Além”, série de terror da Rede Bandeirantes que fez enorme sucesso.
O filme seguinte, “Ritual dos Sádicos” (1969), seria marcado pela estética psicodélica e pelo influxo surrealista. A trama se passa em torno de um psiquiatra que decide investigar os efeitos das drogas sobre o comportamento humano, submetendo cobaias a experimentos com LSD, resultando em uma sequência de alucinações perturbadoras. Censurado pela ditadura, o filme somente seria liberado em 1983, quando foi relançado sob o título “O Despertar da Besta”.
Em 1971, Mojica lançou “Finis Hominis”, outra obra marcada pela estética surrealista e pontuada por comentários sociais e provocações à contracultura hippie. O filme aborda a história de um misterioso homem nu que emerge do mar e passa a vagar por São Paulo distribuindo ensinamentos, convertendo-se em um messias e afetando o cotidiano das massas. A obra teve uma continuação lançada em 1972, chamada “Quando os Deuses Adormecem”.
As produções desse período consagraram Mojica não apenas como pai do terror brasileiro, mas como um dos pioneiros dos subgêneros do horror gore e escatológico. Ao mesmo tempo, a rejeição dos cânones estéticos, o gosto pela experimentação e a tendência a incluir elementos do folclore, da religião e da cultura popular brasileira evocavam a arte do Cinema Novo.
A Boca do Lixo e os anos 80
Apesar de sua abordagem artística inovadora, Mojica não obteve retorno financeiro significativo com seus filmes. O cineasta teve de dirigir várias obras sob encomenda (“Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro”, “D’Gajão Mata para Vingar”, “Exorcismo Negro”) e também trabalhou como ator em produções alheias (“O Cangaceiro sem Deus”, “O Profeta da Fome”).
Com dificuldade para viabilizar projetos autorais elaborados, Mojica passou a trabalhar em produções de baixo orçamento, ligadas ao chamado “cinema de exploração”. O diretor se perfilaria ao movimento conhecido como “Boca do Lixo” — nome dado a um polo cinematográfico sediado na decadente região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, marcado por produções baratas e independentes, mas de relativo apelo comercial.
Os filmes de Mojica nesse período abordam violência, horror, erotismo e humor grotesco. O diretor gravou várias pornochanchadas (“Como Consolar Viúvas”, “As Mulheres do Sexo Violento”, “A Virgem e o Machão”), mas também tentou retomar a temática do terror, lançando filmes como “Delírios de um Anormal”, “Inferno Carnal” e “A Estranha Hospedaria dos Prazeres”.
A crise do cinema brasileiro nos anos 80 forçou vários diretores a migrarem para gêneros baratos e de apelo imediato. Adaptando-se às mudanças, Mojica se afastou cada vez mais do horror autoral e passou a produzir filmes apelativos, centrados em cenas de sexo explícito (“A Quinta Dimensão do Sexo”, “Dr. Frank na Clínica das Taras”, etc.).
Últimos trabalhos
Os filmes de terror de Mojica seriam “redescobertos” nos anos 90, passando a ser exibidos em cineclubes e em mostras de cinema fantástico. Alçado ao rótulo de “figura cult”, Mojica ganharia fama internacional, sobretudo nos Estados Unidos, onde ficou conhecido como “Coffin Joe”.
Superando o ostracismo dos anos 80, Mojica voltaria à televisão em 1996, apresentando o “Cine Trash” na Rede Bandeirantes. O programa era centrado na exibição de filmes de baixo orçamento, nos subgêneros slasher e gore. O diretor também apresentaria “Um Show do Outro Mundo” na Rede Record, com curtas-metragens de horror, e “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, um programa de entrevistas exibido pelo Canal Brasil.
O retorno às telas e a fama internacional consagraram Zé do Caixão como um ícone da cultura pop. Em 2008, Mojica levou novamente o personagem ao cinema, dirigindo “Encarnação do Demônio” — obra que encerra a trilogia iniciada nos anos 60, com “À Meia-Noite Levarei sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”. A obra recebeu o Troféu Menina de Ouro de Melhor Filme de Ficção no Festival Paulínia de Cinema.
Mojica também dirigiria “O Saci”, um dos cinco episódios que compõem “As Fábulas Negras”, uma antologia cinematográfica sobre criaturas do folclore e do imaginário popular brasileiro.
A vida e a obra de Mojica foram retratadas no documentário “Maldito”, de André Barcinski, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Sundance nos Estados Unidos e do Prêmio do Público do Festival É Tudo Verdade. O cineasta também foi tema da minissérie “Zé do Caixão”, produzida pelo canal Space.
Em novembro de 2005, Mojica foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural, outorgada pelo presidente Lula e pelo ministro da Cultura Gilberto Gil. Em 2011, o cineasta foi homenageado pela escola de samba Unidos da Tijuca, que se sagrou vice-campeã dos desfiles do Rio de Janeiro com o samba-enredo “Esta Noite Levarei sua Alma”.
José Mojica Marins faleceu em São Paulo, em 19 de fevereiro de 2020, vitimado por complicações de uma broncopneumonia. O velório ocorreu no Museu da Imagem e do Som (MIS), reunindo um grande número de admiradores e personalidades do circuito cultural. Mojica tinha 83 anos e deixou como legado uma filmografia com 43 filmes dirigidos e mais de 60 atuações.