Resumo objetivo:
Um estudo liderado por pesquisadores da Unicamp revelou que as veredas e áreas úmidas do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, estoque que se formou ao longo de milhares de anos. O mapeamento por sensoriamento remoto e inteligência artificial mostrou que essas áreas ocupam cerca de 8% do bioma, uma extensão seis vezes maior do que se estimava anteriormente. No entanto, esses ecossistemas estão ameaçados por atividades humanas como a expansão agrícola e a alteração do regime hídrico, o que pode liberar esse carbono antigo e causar danos irreversíveis em escala de tempo humana.
Principais tópicos abordados:
1. Capacidade de estoque de carbono: As veredas do Cerrado armazenam quantidades excepcionalmente altas de carbono no solo, acumulado há milênios.
2. Extensão e importância ecológica: A pesquisa mapeou uma área muito maior do que o conhecido, destacando seu papel como berço de águas e sua biodiversidade.
3. Ameaças e vulnerabilidade: Esses ecossistemas estão sob risco devido à pressão antrópica, e sua degradação pode levar à emissão do carbono estocado e a perdas ecológicas irreparáveis.
Os campos úmidos e as veredas do cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas tÃpicas na amazônia.
Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.
Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12) na revista cientÃfica New Phytologist e liderado por pesquisadores do IB-Unicamp (Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas).
Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil km² no cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.
Segundo maior bioma da América do Sul, o cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como "berço de águas" por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste.
Também abriga os chamados olhos dâágua âafloramentos naturais do lençol freáticoâ, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal, que os classifica como APPs (áreas de preservação permanente).
Imortalizadas na obra "Grande Sertão: Veredas" âque completa 70 anos em 2026â do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CHâ), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.
Apesar de pouco visÃveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hÃdrico provocadas pela expansão agrÃcola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.
Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nÃvel do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.
"Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difÃceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas, com o processo de restauração florestal, é possÃvel chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo", exemplifica à Agência Fapesp a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.
"Agora, o carbono do solo de uma área úmida do cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos."
O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.
Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (EUA) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que também apoiou o estudo por meio de AuxÃlio à Pesquisa concedido a Oliveira.
"O cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrÃcola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a amazônia e a mata atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação", diz Oliveira, que também assina o artigo.
"Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido", complementa.
Mesmo com tendência de queda, os Ãndices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no perÃodo anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfÃcie de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).
Trabalho de campo
A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.
"Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado", conta Verona.
O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.
Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuÃram no mapeamento das áreas.
O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de COâ e CHâ ocorreram durante a estação seca.
Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramÃneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.
No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.
Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.
"Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os nÃveis de carbono estocados, sem contar os prejuÃzos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos", projeta o professor.
Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hÃdrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do cerrado, incluindo os olhos dâágua, continuam sistematicamente negligenciados por polÃticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização.
O novo artigo, em inglês, pode ser lido aqui.