Resumo objetivo:
O conflito no Oriente Médio tem se prolongado além do esperado pelos EUA, com o Irã demonstrando resiliência ao nomear um novo líder supremo (Mojtaba Khamenei) e manter o controle estratégico sobre o Estreito de Ormuz. Analistas apontam que os EUA subestimaram as capacidades militares iranianas e que a guerra evidencia uma crise na ordem internacional liderada pelos americanos, que enfrentam contestação em múltiplas frentes. O Irã utiliza o bloqueio marítimo como pressão, mas flexibiliza a passagem para alguns aliados para mitigar os efeitos econômicos do conflito prolongado.
Principais tópicos abordados:
1. A resiliência e a postura ofensiva do Irã no conflito, incluindo a sucessão de liderança.
2. O controle estratégico do Estreito de Ormuz pelo Irã e seu uso como ferramenta geopolítica.
3. A subestimação das capacidades militares iranianas pelos EUA e os erros de inteligência.
4. Os impactos econômicos globais da guerra, incluindo a crise energética e as medidas de mitigação.
5. A crise da ordem internacional liderada pelos EUA e o declínio de sua hegemonia.
6. A preocupação com o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã.
Enquanto a guerra no Oriente Médio se estende além do previsto por Washington (EUA), o Irã demonstra uma resiliência que surpreendeu os estrategistas estadunidenses. A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo — filho do aiatolá assassinado no primeiro ataque — e a manutenção do controle sobre o Estreito de Ormuz são sinais claros de que Teerã não pretende recuar.
No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o analista internacional e doutorando em ciência política pela UFMG, Henrique Gomes declara: “A eleição de um novo líder supremo surpreendeu analistas. Eu mesmo achava que não iriam fazer isso a essa altura, pois seria colocar um alvo nas costas. Mas eles estão mostrando que não têm medo e que vão de cabeça erguida enfrentar Estados Unidos e Israel.”
O analista destaca que os EUA subestimaram as capacidades militares iranianas. “Houve um erro estratégico da inteligência estadunidense, que achou que já tinha derrubado todas as bases militares mais importantes. Mas o Irã ainda tinha outras, não captadas pela inteligência dos EUA.”
Sobre a não aparição pública de Mojtaba Khamenei — que teve seu primeiro discurso lido por um apresentador na TV estatal —, Gomes explica que se trata de uma medida estratégica. “Grande parte da família dele foi morta no primeiro ataque: o pai, a mãe, a esposa e um filho. Não aparecer não é covardia, é estratégia. Mas fazer o discurso é importante para mostrar que ele está presente e vai liderar o país.”
O analista alerta para a dificuldade de obter informações confiáveis sobre o conflito. “Está sendo difícil se informar. Tivemos semana passada um caso constrangedor em que confirmaram a morte de uma figura que depois apareceu publicamente. Temos que ter muita parcimônia, checar várias contas diferentes e não fazer análises apressadas.”
O controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tem sido usado como ferramenta de pressão. “O Irã tem uma posição muito estratégica e uma forte presença militar, consegue controlar o acesso. Já atacou embarcações que tentaram passar desde o início do conflito”, lembra Gomes.
Ele avalia a promessa de Trump de escoltar embarcações pelo estreito. “O Pentágono admitiu que a região é muito complexa taticamente. O Irã colocou minas marítimas para impedir a passagem. Os EUA podem até ter capacidade, mas será limitada.”
Agora, no entanto, o Irã tem flexibilizado o bloqueio para alguns aliados. “As partes estão cientes de que o conflito vai se estender e tentam mitigar os efeitos econômicos. O Irã está permitindo que certos países passem para não prejudicar tanto as rotas comerciais.”
Em meio à crise energética, os EUA anunciaram a flexibilização de sanções para permitir a compra de petróleo russo refinado no mar. A medida foi criticada por aliados europeus. Gomes contextualiza a decisão. “Apesar da rivalidade histórica entre EUA e Rússia, Trump tem um apreço pessoal pela figura de Putin. Enxerga nele um grande líder. Esse aceno é uma forma de tentar mitigar a questão econômica do conflito.”
O G7 também anunciou o uso de reservas estratégicas para conter a escassez e a alta do preço do barril. “Ambas as partes estão tentando mitigar os efeitos econômicos de uma guerra que se prolonga.”
Gomes analisa o conflito como mais um capítulo na crise da ordem internacional liberal capitaneada pelos EUA. “A década de 2020 do século 21 vai ser lembrada como o momento em que essa ordem mais foi contestada. Os Estados Unidos ainda são a maior potência militar, mas não conseguem mais atuar como polícia do mundo. Têm contestações em todos os níveis — econômico, político, militar.”
Ele destaca que uma das principais questões do conflito é impedir que o Irã desenvolva armas nucleares. “O Irã já é um rival declarado dos EUA. Se desenvolver armas nucleares, isso é uma ameaça ao poderio estadunidense, à existência de Israel e ao equilíbrio de poder no Oriente Médio.”
Sobre a posição europeia, o analista aponta que o continente está mais preocupado com a Ucrânia. “A Europa não quer comprar essa guerra entre EUA e Irã. Está se rearmando, com medo de que a Rússia, derrotando a Ucrânia, avance sobre outros países. Vários conflitos acontecendo ao mesmo tempo reconfiguram a ordem internacional.”
Gomes conclui com uma reflexão sobre a centralidade da geopolítica. “Havia quem acreditasse que não haveria mais guerras clássicas de anexação de território. Esse século está mostrando que território importa, que o controle de certos espaços afeta a política global. O Irã está usando a geoeconomia do Estreito de Ormuz como arma, e a interdependência econômica faz com que isso afete todos os mercados globais.”
Sobre as manifestações no Irã, Gomes pondera que, apesar de contestações internas, o perigo externo tende a unir a população. “Nada faz a população defender seu governo mais do que o perigo externo. Muitas pessoas vão se mobilizar em favor do Irã não porque defendem especificamente o novo aiatolá, mas porque não querem ingerência externa nos assuntos domésticos.”
Para ouvir e assistir
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