Resumo objetivo:
Enquanto o Brasil enfrenta números recordes de feminicídios, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em comissão um projeto para renomear a rua Peixoto Gomide, que homenageia um senador feminicida do século XIX, passando a se chamar Sofia Gomide em memória de sua vítima. A iniciativa, liderada pela vereadora Luna Zarattini, insere-se em uma luta mais ampla por memória e justiça, visando retirar de espaços públicos homenagens a figuras históricas associadas à violência de gênero, racismo e ditadura. O projeto ainda depende de votação no plenário e enfrentou oposição de um vereador da extrema direita, gerando debate sobre o combate a discursos de ódio e a naturalização da violência contra as mulheres.
Principais tópicos abordados:
1. Aumento dos feminicídios no Brasil e a resposta simbólica por meio de políticas de memória.
2. Projeto de lei para renomear uma rua em São Paulo, substituindo a homenagem ao agressor pela vítima.
3. Debate sobre memória histórica, com críticas a homenagens públicas a feminicidas, torturadores e escravistas.
4. Posicionamento político da extrema direita contrário ao projeto e a acusação de que ela inflama discursos de ódio.
5. Engajamento da sociedade civil na campanha "Feminicida não é herói" e na luta contra a violência de gênero.
Enquanto o Brasil registra o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime — mais de 1.500 em 2025 —, a Câmara Municipal de São Paulo deu um passo simbólico e concreto no enfrentamento à violência de gênero: aprovou, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), um projeto de lei que propõe a renomeação da rua Peixoto Gomide, em homenagem ao senador que matou a própria filha no século XIX, para um nome que celebre a memória da vítima, Sofia Gomide.
A vereadora Luna Zarattini (PT-SP) contextualiza o projeto dentro de uma luta mais ampla por memória e justiça. “Acreditamos que o feminicida não é herói e não deve ser homenageado, assim como torturadores da ditadura, racistas, escravistas. É fundamental que esse debate de memória não seja sobre o passado, mas sobre o presente e o futuro”, disse no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
A vereadora destaca que a cidade de São Paulo precisa retomar projetos como o “Ruas de Memória”, criado na gestão Haddad e descontinuado nas administrações seguintes. “Queremos que a prefeitura retome esse projeto, que buscava fazer um diálogo com a cidade de que os espaços públicos não podem homenagear torturadores, ditadores. E precisamos estender isso a feminicidas, racistas, escravagistas. Nossa cidade deve contar a nossa história, não a história daqueles que nos mataram e nos silenciaram.”
O caso do senador Peixoto Gomide, que assassinou a própria filha por não aceitar seu casamento, revela como homens violentos são historicamente acobertados pela sociedade. Zarattini vê na mudança do nome da rua uma forma de romper com essa lógica.
“Quando dizemos que feminicidas não podem ser homenageados, estamos fazendo um debate sobre a luta contra o discurso de ódio que assola a vida das mulheres. Abrimos um diálogo com a sociedade de que os homens não podem ser tratados como heróis quando violentam mulheres.”
A vereadora conecta a iniciativa à tipificação do feminicídio no Código Penal. “A partir do momento que temos essa tipificação, começamos a abrir um diálogo mais amplo para dizer que as mulheres são violentadas apenas pelo fato de serem mulheres. Isso deve ser reconhecido como uma desigualdade de gênero.”
O único voto contrário ao projeto na CCJ foi do vereador Lucas Pavonato (PL). Para Zarattini, a posição revela o compromisso da extrema direita com discursos que naturalizam a violência. “Isso mostra nitidamente que a extrema direita inflama discursos de ódio e não compactua com a emancipação das mulheres.”
Ela denuncia que esse segmento político nunca esteve ao lado das mulheres, especialmente as mais pobres. “Usurpam e ocupam a política por interesses próprios, para defender famílias como a dos Bolsonaro. Esse vereador sequer trouxe algum projeto sobre periferias, direitos sociais ou avanço para a população. O objetivo é o engajamento pelo ódio, que hoje mata mulheres.”
Zarattini alerta para o impacto desses discursos nas redes sociais. “Movimentos que envolvem jovens num discurso de ódio contra as mulheres se proliferam. É preciso denunciar tudo isso e principalmente essa postura de vereadores de extrema direita.”
Próximos passos e a homenagem a Sofia Gomide
O projeto ainda precisa ser votado no plenário da Câmara Municipal. Se aprovado, a rua passará a se chamar Sofia Gomide, em memória da vítima. Zarattini convoca a sociedade para se engajar na campanha “Feminicida não é herói”.
“Precisamos da aprovação da maioria dos vereadores. Queremos fazer uma homenagem em memória da Sofia e de todas as mulheres, um grande levante não apenas de mulheres, mas da sociedade como um todo. A questão do machismo não é um problema a ser tratado só pelas mulheres, é um problema da sociedade!, destaca.
A vereadora conclui com uma mensagem contundente sobre o futuro. “Convocar a sociedade civil para estar conosco nesse debate de memória, presente e futuro significa dizer que a partir de agora não toleraremos, não aceitaremos que nenhuma rua na cidade de São Paulo, nenhuma rua no nosso país homenageie aqueles que tiraram a vida das mulheres.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.