Agnes, mãe de Hamnet, morto aos 11 anos da peste que periodicamente assolava a Inglaterra, viaja indignada e sem aviso de Stratford-upon-Avon a Londres depois de saber que seu marido William, pai ausente do menino, estrearia uma nova peça de teatro, uma tragédia chamada "Hamlet".
Diante do palco começa a catarse de Agnes, que a faz transitar da revolta ao arrebatamento, da ruptura à reconciliação. Não há de ser fácil obter o efeito extático da composição entre atuação (Jessie Buckley), direção (Chloé Zhao) e roteiro (Zhao e Maggie O'Farrell) na sequência final do filme britânico "Hamnet".
Não é nova a especulação, adotada no romance de O'Farrell em que o filme se baseou, de que a origem de Hamlet estaria associada ao trauma da perda de Hamnet. James Joyce a explorou em "Ulysses" (1922). Nessa hipótese, a versão madura da peça, de 1601, foi escrita por Shakespeare como uma forma de expiar a culpa e absorver o choque. Ao interpretar o Fantasma de Hamlet pai na peça, William troca de papéis com o filho morto e projeta no jovem prÃncipe Hamlet os seus desejos interrompidos pela fatalidade.
O garoto morreu cerca de cinco anos antes da estreia da peça no palco londrino, e o fato curioso é que havia uma versão mais antiga do drama, do final da década de 1580, da qual não resta documentação, mas que provavelmente era bastante diferente e bem menos inovadora da que ficou consagrada.
Como é comum na dramaturgia shakespeariana, as fontes de Hamlet âou Hamnet, as duas formas designavam o mesmo nome na Inglaterra isabelinaâ vêm de relatos e lendas de nobreza e poder difundidos na época. Um deles, recontado em 1570 pelo cronista francês François de Belleforest, tratava de um prÃncipe dinamarquês que se faz de maluco para vingar o assassinato do rei, seu pai, pelo tio traidor. O nome do herói, Amleth, significa "aquele que finge loucura".
Estão aà os ingredientes para compor uma encenação convencional de peripécias medievais. Chame o rei defunto de Horwendil, coloque-o como um espÃrito a azucrinar o filho Hamlet para que ele vá à forra contra o tio Cláudio, despeje uma pitada de ardil no prÃncipe para enganar o usurpador e está feito o auto.
E de fato parece ter sido esse o caminho adotado por Shakespeare na primeira versão de "Hamlet", finalizada quando o filho Hamnet estava na primeira infância. VestÃgios dessa escolha original subsistem na peça de 1601, ensina o crÃtico Harold Bloom. O roteiro da vingança permanece como uma espécie de invólucro para o drama, bem como o subterfúgio da loucura fingida. O próprio Cláudio mantém-se, de uma versão à outra, um vilão chapado, caricato, distante da complexidade de um Iago, antagonista de "Otelo".
O que se altera no correr de pouco mais de uma década entre as duas versões é Hamlet, e isso muda tudo. De um herói medieval vingador ele se transforma num homem novo do Renascimento, cheio de dúvidas, embalado em ceticismo, empenhado na investigação da finitude, no autoconhecimento e na correção da própria conduta.
No quinto e último ato, ao retornar à Dinamarca Hamlet se depara com os coveiros a preparar o enterro da afogada Ofélia. Revolvem a terra e expõem ossadas antigas, entre elas o crânio de Yorick, o bobo que cuidou de Hamlet na infância. A reflexão sobre a morte âo destino comum de pobres e ricos, imperadores e mendigosâ vai conduzir o protagonista a um estado de aceitação pacificada do seu destino trágico, vai levá-lo a abandonar os esforços para controlar o desfecho da sua jornada.
O Hamlet maduro, na interpretação clássica de Bloom, torna-se maior que a própria peça e talvez por isso tenha sobrevivido mais pela transcendência, como Quixote ou Aquiles, do que pela trama.
Se a metamorfose do Hamlet medieval para o moderno se deveu mesmo ao baque com a morte do filho de Shakespeare, ocorrida no meio desse caminho, será difÃcil decidir com as fontes históricas disponÃveis. Mas a literatura vive de outros motores e, do ponto de vista poético, o filme de Chloé Zhao ativou uma conexão poderosa.